• João Camilo Portal

O historiador contra o mercado

Dificilmente se escuta nos cursos de história a palavra “mercado”. Quando proferido, o termo remete a empreendedorismo e, como consequência naturalizada nos corredores das Humanas, à precarização do trabalho e à hegemonia capitalista mundial. Comumente, em outras graduações, tal palavra é muito mais habitual; discussões sobre quais áreas estão em alta, qual a pretensão salarial, como é possível se destacar, qual diferencial oferecer em seu produto ou serviço são questões levantadas na maioria dos cursos. Por que na graduação em história é diferente? Romantização da precaridade, falta de respostas propositivas ou discurso estatal ultrapassado?


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Desde sua transformação em disciplina no século XIX, a história se propôs a formar um discurso científico sobre o passado. Fortemente vinculada aos Estados-nação europeus, a história deles se originou enquanto imagem nacional. Certamente, muitas coisas mudaram desde então, mas uma questão fundamental permanece: a forte ligação entre o fazer história e o Estado – e isso não é diferente no âmbito econômico. Por conta das regras das agências de fomento, a principal renda dos pesquisadores é apenas suas bolsas de pesquisas – infelizmente cada vez mais escassas, não reajustadas e com dedicação exclusiva. E isso para aqueles que conseguem bolsa, e não tem de se virar para conciliar com suas fontes de renda! Por outro lado, além do campo da pesquisa acadêmica, a imensa maioria dos historiadores atua na educação básica, principalmente na rede pública. Espremidos entre essas duas categorias do fazer histórico, os historiadores se veem confrontados com novas justificativas para suas atuações, como diversos autores têm tentado mostrar, como Marcelo Téo, Pedro Telles da Silveira, Bruno Laitano etc.


É fundamental ressaltar que o mercado de trabalho dos historiadores, em sua imensa maioria, é a docência no ensino básico. Para outra parcela, a academia é não apenas o espaço de formação intelectual em nível superior: é também seu ponto de chegada futura. Nós nos formamos na academia para continuarmos na academia, com professores que possuem como experiência a pesquisa histórica e o fazer histórico-científico-acadêmico. Não seria demais afirmar que nossa experiência profissional é pautada sobretudo pela pesquisa acadêmica e também pelo ensino básico, principalmente a partir dos recentes mestrados profissionais. Não falo isso em tom de demérito. Muito pelo contrário: tenho absoluta certeza da qualidade da historiografia brasileira, da enorme dedicação que uma pesquisa nos demanda e do grande engajamento – principalmente da História Pública – em produzir novas circulações do conhecimento histórico.


O que gostaria de salientar é a singularidade do ensino superior em história em relação a outros cursos. Um professor de ensino superior em administração, por exemplo, trilhou diversos caminhos até se tornar professor universitário. Um professor de engenharia, na maioria dos casos, trabalhou por muitos anos enquanto engenheiro, se dedicando posteriormente ao ensino universitário. Poderíamos falar o mesmo para inúmeros cursos: Odontologia: dentista; Direito: advogado; Jornalismo: jornalista. A diferença do campo histográfico, aqui, é que somos pautados principalmente pela trajetória acadêmica, pois a academia é muitas vezes nosso mercado de trabalho, assim como nossa possibilidade de ascensão profissional. Isso faz com que nosso campo de atuação seja extremamente limitado. Apesar das poucas iniciativas em arquivos e locais de memória, a maioria de nós se dedica ao ensino básico, com baixos salários e enfrentando concursos muito disputados. É muito triste perceber a precária realidade da docência brasileira, principalmente no Rio Grande do Sul, que tem o menor piso salarial da categoria em nível nacional. Muito embora devamos lutar por mais bolsas e editais de pesquisa e por uma maior valorização do conhecimento científico, nós também devemos lutar por melhores condições de trabalho – e isso também significa ampliar nosso leque de atuação profissional, principalmente o mercado privado.


Tenho plena consciência da absoluta genialidade de muitos colegas que tive ao longo da graduação e do mestrado, e fico muito triste em ver muitos deles não conseguindo emprego ou, ainda, muito frustrados com o mercado profissional para nossa área, começando uma outra graduação que permita maiores salários. Com um cenário de cortes imensos das agências de fomento, penso que não podemos limitar nossos futuros profissionais apenas à CAPES, ao CNPq ou a concursos públicos que giram em torno de dois mil reais mensais. Aliás, isso é inclusive um problema: não é raro que nossas duas principais áreas de atuação se confrontem. A maioria das escolas privadas não contrata professores com doutorado, pois têm de pagar salários mais altos, o que não compensa financeiramente. Nos vemos espremidos por entre nossos dois principais mercados, sem ter para onde ir com a história, muitas vezes trabalhando em empregos que não dizem respeito à nossa formação. Com o tempo, descobrimos que as pessoas não querem apenas amar seus empregos: querem ser recompensadas dignamente em relação às suas atuações, e isso, atualmente, os historiadores – sofrendo crescentes desprestígios pela parcela reacionária de nossa sociedade – não o são.


Recentemente, descobri que o significado psíquico da palavra “desânimo” é o resultado de um alto esforço com um baixo resultado. Acredito que isso se aplica perfeitamente à realidade atual dos historiadores no país. Nós naturalizamos o desânimo em relação aos baixos salários, o que nos faz lidar com inúmeras frustrações, principalmente pelo fato de nossa profissão não possuir um respaldo de mercado que proporcione autonomia profissional. Já ouviram algum historiador se dedicar ao empreendedorismo? Eu nunca ouvi. Mas conheço milhares de historiadores que olhariam esse sujeito com desconfiança e antipatia.


Enquanto nos confrontamos com inúmeras concorrências internas de bolsas escassas – o que acaba gerando um clima de competitividade nos corpos discentes – nós afastamos a discussão a respeito do mercado. Acredito que este é, na verdade, também um dos sintomas de nossa própria precarização, reproduzida discursivamente por nós mesmos. Retomando a questão formulada por Pedro Telles da Silveira (2020, p. 6), como “escapar desses mesmos impasses e restituir o espaço de uma autonomia e felicidade possíveis para historiadoras e historiadores confrontados com a necessidade de pagar suas contas e o desejo de mobilizar seu saber”?


Infelizmente, quando tocamos em questões tangentes ao mercado e à iniciativa privada, pensamos apenas em lucro, expropriação da mais-valia e exploração. Mas isso é totalizar uma experiência diversa, uma realidade econômica que nem sempre faz jus a essa leitura. Precisamos abandonar a naturalização do pessimismo e do mal-estar historiográfico e pensar em soluções propositivas para nossos problemas profissionais. E, para isso, é necessário não mais opor ética e mercado ou cidadania e iniciativa privada. É uma questão não apenas científica, mas principalmente econômica. Infelizmente muitos historiadores se veem frustrados profissionalmente com a incapacidade de transformar seu conhecimento em trabalho lucrativo. Acredito que a historiografia alcançou sua falta de reconhecimento também pelo seu esgotamento enquanto categoria discursiva que deve ser, necessariamente, pública, pois alguns acreditam que uma “história vendida” ou “história privada” seria antiética e imoral.


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Como profissionais especialistas em analisar a experiência humana no tempo, acredito que fazer uma leitura do tempo profissional da história atualmente é uma tarefa, se não desgostosa, ao menos difícil, pois é precária e muitas vezes triste. Falar na profissionalização dos historiadores e historiadoras, nossa mais recente conquista, também significa nos confrontar com qual é o profissional formado pelos cursos de história. Por que a iniciativa privada, o empreendedorismo e a inovação são tão execrados em nossos meios? Com isso, nós tendemos a produzir nossa própria estagnação, assim como nossa angústia econômica. Penso que não propor alternativas em relação a essas questões é, mais uma vez, continuar na imobilidade e acreditar que história se faz apenas com pesquisa. Mas a história, e os historiadores, podem realizar muito mais do que isso.


A alta carga de leitura, o amplo conhecimento da realidade social passada, uma série de debates teóricos a respeito da narrativa histórica são grandes atributos que nós temos, e que infelizmente muitas vezes não são aproveitados por nós profissionalmente: para além da educação básica, raramente possuímos outro mercado. Recentemente, em um curso de roteiro audiovisual que estou realizando, escuto estupefato à última frase de Jorge Furtado na live de lançamento do curso, ofertado pela plataforma B_arco. Após responder questões do público, esse grande roteirista brasileiro se despediu, dizendo: “é isso então, pessoal. Se cuidem. E vamos contar histórias”.


“Contar histórias?”, pensei. “Bem, isso nós historiadores também podemos fazer!”. De maneira semelhante, Marcelo Téo se questionou sobre essa mesma questão em texto recente, criticando a maneira pela qual os historiadores enxergam conteúdos do passado produzidos por outros profissionais, permanecendo “uma oposição entre o conhecimento acadêmico e o conteúdo, supostamente prostituído pela ‘preocupação mundana’ com a circulação de grande porte” (TÉO, 2018, p. 368). Por que, então, nós, historiadores, não nos empenhamos em produzir materiais de amplo alcance, propondo narrativas audiovisuais e criativas que chamem a atenção do público? Enquanto os historiadores falam mal de Eduardo Bueno e reclamam dele, talvez fosse mais produtivo aprender o que faz ele vender tantos livros de história e ser tão popular. Um pouco de marketing aqui seria fundamental, e acredito que a História Pública, com certeza, terá de lidar com essas problemáticas. A História Pública não pode ser apenas um campo acadêmico: ela também deve ser um campo de estudos dedicado a proporcionar uma nova atuação profissional para nós historiadores. Enquanto apenas criticamos Leandro Karnal, deixamos de aprender questões fundamentais com ele. Apesar das discordâncias, temos de reconhecer que Karnal, enquanto historiador, soube atuar em diversas plataformas online que lhe deram uma enorme projeção nacional, lhe rendendo uma grande presença na mídia e uma posição de destaque enquanto comentarista respeitado pela maior parte dos espectadores. Como bem disse Bruno Laitano (2021) sobre esse historiador às margens, que não cessa em ser marginalizado e excluído por seus pares por conta de seus flertes com o dinheiro – do tipo “cuidado, Karnal é o Tio Sam disfarçado de careca!” –, Karnal é possivelmente a maior referência de um historiador que a população brasileira tem.


E digo isso pois acredito que a história, assim como as Ciências Humanas, não deve ser desassociada do mercado. Não podemos mais assumir apenas a postura de “crítica vigilante do conteúdo produzido pelo e para o mercado” (TÉO, 2018, p. 369-370). Enquanto isso, continuamos fechados em nossa bolha historiográfica de uma “história correta”, sendo precarizados e com inserções profissionais muitíssimo limitadas, tendo uma visão por vezes equivocada sobre o que significa a livre iniciativa privada. Observo com tristeza muitos colegas, plenamente qualificados, com ótimas dedicações à pós-graduação, se vendo frustrados em seus destinos quando terminam o mestrado, muitos abandonando o meio historiográfico por falta de estabilidade financeira. E estou falando de profissionais com um conhecimento quase enciclopédico, com saberes históricos avançados, que realizaram boas graduações e pós-graduações.


Retornando à questão inicialmente levantada, acredito que – muito embora eu considere trágico ter de afirmar essa obviedade – o mercado não pode ser nosso inimigo. Nós temos plena capacidade de propor consultorias históricas, desenvolver produções audiovisuais e tecnológicas sobre o passado, se lançar para a mídia e muitas outras questões ainda a ser pensadas. Recentemente, a História Pública trouxe à tona algumas dessas questões, como a demanda pela nossa profissionalização e nossa maior inserção no mercado de trabalho. É mister que proponhamos essas discussões durante a graduação dos alunos para conquistarmos posições dignas, boas e diversas inserções profissionais, sob a pena de, mais uma vez, afastarmos a possibilidade de propormos respostas criativas em meio ao próprio tempo em que vivemos. A disciplina histórica não pode continuar sendo economicamente anacrônica em seu próprio tempo profissional.


Créditos da imagem destacada: Photo by Museums Victoria on Unsplash


Referências:

LAITANO, Bruno Grigoletti. Um historiador às margens. História da Ditadura, Rio de Janeiro, 30 de junho de 2021.

SILVEIRA, Pedro Telles da. O historiador com CNPJ: depressão, mercado de trabalho e história pública. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 12, n. 30, maio/ago. 2020, pp. 1-28. TÉO, Marcelo. Desequilíbrio de histórias parte I: um problema do campo das humanidades (?). Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 10, n. 23, jan./mar. 2018, pp. 358‐380.

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