• Nashla Dahás

Pedro e eu. Um relato sobre a ditadura no Uruguai

La gente normal no sabe que todo es posible.

(David Rousset. El Universo Concentracionario, 1946).

Sob as sombras das várias formas de violência que tomam o atual campo sociopolítico no Brasil, reproduzirei a seguir parte de um dos relatos psicanalíticos publicados pelo médico uruguaio Marcelo Viñar e por sua esposa, a escritora uruguaia Maren Ulriksen de Viñar, em 1993. Em seu conjunto, os testemunhos tratam das formas de resistência psíquica encontradas por pessoas levadas aos extremos da dor em sessões de tortura conduzidas por agentes da repressão durante a ditadura militar no Uruguai (1973-85). Reunidos sob o título Fracturas de memoria. Crónicas para uma memoria por venir, os capítulos são o resultado do trabalho psicanalítico realizado por Viñar com pessoas detidas, torturadas e\ou exiladas em contexto autoritário e tiveram repercussão internacional, tendo sido publicados também na Argentina e na França. No prólogo, o psicanalista Daniel Gil se coloca a questão: “Como se pode medir, não digo um mês de tortura, tão somente uma hora de sessão, o insulto, o espancamento, os choques elétricos? Como ressarcir anos de cárcere? Como se saldam doze anos de exílio? Se pode recuperar um filho morto?”.

Tortura, insulto, cárcere, exílio e morte voltaram recentemente ao centro da autoimagem latino-americana em sua dimensão empírica e generalizada pelas mãos de um fascismo naturalizado – talvez nunca tenham passado. Com a apresentação dos fragmentos selecionados, gostaria de evocar a história de desradicalização a que as esquerdas foram submetidas nesse amplo e variado subcontinente desde que se insurgiram como revolucionárias nos anos de 1960. A expectativa é de reinscrição daquela experiência radical na memória política, quem sabe convertida em crítica potente. Como afirma a crítica e teórica cultural Nelly Richard, as feridas da memória são sinais gravados e seu entrecruzamento – das feridas semidesaparecidas ou por-aparecer – podem ser um elo entre a lembrança e as forças de atuação e de sentido no presente.

O personagem do relato que pretendo difundir se chama Pedro, “Pedro ou a demolição”, conforme intitulado pelo autor, Marcelo Viñar, em versão original de 1976, ele mesmo um psicanalista uruguaio exilado na França durante a ditadura. Pedro é escolhido como protagonista por Viñar em razão de seu potencial anti-heroico, por seu suposto fracasso. No momento da publicação, no começo dos anos de 1990, o regime transicional pós-autoritário e a sociedade uruguaia viabilizavam suas “políticas de memória”, nomeadas como “políticas de esquecimento” (1985-2001) em círculos não governamentais e acadêmicos, segundo nos conta a socióloga Gabriela Amilivia em artigo recente. De acordo com a autora, tais iniciativas estatais ficaram popularmente conhecidas como “políticas de impunidade”. A mais emblemática delas foi a aprovação, em dezembro de 1986, da Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado, que absolvia todos os comandos militares e policiais subalternos dos crimes cometidos durante a ditadura, sem investigação, reconhecimento ou processo prévio.

Mas voltemos a Pedro que, segundo consta, era sujeito seguro de si, dispondo de êxitos profissionais, pessoais e políticos, com filhos plenos de vida. Conforme pensava, a revolução sem violência estava a caminho, em marcha, no seio das democracias liberais. Enquanto isso, outra geração de jovens mais ou menos bem sucedidos(as) inspirava-se em Che Guevara, escolhendo a guerrilha como estratégia mais acertada para a revolução. Rapidamente os grupos revolucionários foram destruídos – tal como havia acontecido no Brasil. Milhões de pedros, porém, continuaram vivendo a democracia liberal: embora a violência fosse sádica e terrível, se limitava às vítimas de guerrilha, concluíam. Pacifista, segundo as palavras de nosso narrador, Pedro continuou militando nos limites institucionais, sem lugar para armas, de acordo com as regras do jogo democrático – manchado, contudo, pela violência aniquiladora e desproporcional do poder militar.


Bandeira do Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros (MLN-T), grupo revolucionário de guerrilha urbana uruguaio que atuou nas décadas de 1960 e 1970, antes e durante a ditadura. Wikimedia Commons.

A situação se modificou apenas quando o fim da guerrilha não foi o bastante para suspender a violência militar que, como uma espiral, desenvolveu-se perfeitamente calculada sobre os acusados de inimigos da segurança nacional, grupo cada vez mais amplo de subversivos(as), agora entendidos(as) como todos(as) que não pensam como o poder que então ocupava o Estado uruguaio. Segundo o relato, Pedro sentia que não podia, ainda assim, renegar sua existência, sua trajetória de 25 anos. E os pedros continuaram pregando cartazes nas cidades, juntavam um pouco de dinheiro e publicavam um folheto em mimeógrafo advertindo que se vivia em uma ditadura e relatando fatos trágicos de sofrimento individual e coletivo. Até que, um dia, uma patrulha militar buscou Pedro em sua casa e o levou, com a sua esposa, para uma prisão militar.



Foi tratado pior do que uma besta. O oficial, seguro de sua missão sagrada e de enfrentar o demônio, lhe disse, altivo, que devia denunciar as pessoas com quem estava ligado. Pedro era forte e resistiu. Foi suspenso pelos pulsos amarrados nas costas, até que se sentiu desmembrar. Eles o mergulharam mil vezes em água com excrementos. Ele foi torturado com choques elétricos. Pedro resistiu. [...]
“Eu não estou louco”, dizia a si mesmo, “mas há outro dentro de mim”. No tempo incomensurável de sua solidão, ele começou a falar consigo mesmo tal como o oficial fazia; dizia coisas sobre sua autoestima, e algo se quebrava, no apoio e na adesão aos ideais em que sempre acreditou. Algo que existe em cada sujeito, e que pomposamente se chama de concepção do mundo, começava a se desarticular. Alucinava e não discernia seus pensamentos da própria loucura. Pouco a pouco, ele começou a pensar que seus acusadores tinham razão. Em todo caso, eles falavam com firmeza; eles não tinham dúvidas e hesitações como ele, que sempre questionava as verdades. Foi exibido a alguns de seus antigos amigos, que gemiam – servis e obedientes– e que haviam perdido seus gestos humanos.
Pedro começou a acreditar que essa polaridade era uma ordem natural e que deveria ser mantida. Tinha coerência; não era confusão nem loucura. Em seu horror, toda a ordem era verdadeira, até mesmo a ordem fascista. Passou a admirar e a amar o oficial, em sua eficiência e carisma. O outro Pedro que nasceu, aceitou o militar e repudiou os seus e a si mesmo. [...]
E se Pedro já era delator, se já estava marcado por um estigma pelo qual seria repudiado pelos seus, que diferença fazia evitar novas e terríveis torturas, respondendo a algumas perguntas? Da mesma forma, o oficial parecia-lhe bom, prometia-lhe as coisas que mais desejava: acabar com este tormento, evitar – se colaborasse – uma prisão que seria a morte em vida. Além disso, Pedro guardou dois ou três segredos essenciais sobre os seus e sentia que a resistência continuaria, com quem conseguisse fazê-lo.
Pedro foi jogado na pocilga; não sofreu arrependimentos.
Ele acreditou submissamente que sua absolvição e sobrevivência foram o resultado da magnanimidade do oficial que falava com ele. Ele estava vivo e poderia sair porque o oficial era bom. Não havia dúvida.	

Homenagem aos(às) detidos(as) e desaparecidos(as) durante a ditadura uruguaia (1973-85). Wikimedia Commons.

Segundo o relato de Marcelo Viñar, a dúvida se instaurou em Pedro apenas com a presença de sua esposa, com seu silêncio amável, doce e compreensivo. Ela também esteve detida e, imaginava Pedro, deve ter recebido o mesmo tratamento. Mas havia resistido. Pedro foi capaz de tal conclusão mirando seus olhos, sua maneira de comportar-se e de falar. Além disso, havia um braço paralítico que ela carregava, sempre ali, testemunhando a valentia de uma e a incapacidade do outro. Nas palavras de Viñar: “o fascismo havia traçado uma divisão no mundo entre ele e ela”. A indiferença de Pedro tornou-se, assim, angústia e desespero.

O diagnóstico anunciado no título do relato: demolição.

A partir da intensidade da dor física, do descontentamento sensorial – escuridão, capuz –, do rompimento de todos os laços afetivos e efetivos com o mundo pessoal, sempre amado, chega-se à presença constante de um corpo em dor, sofrido, desfeito, totalmente à mercê do perpetrador, que faz desaparecer todas as outras presenças no mundo que não aquela centrada na experiência atual. Chamamos esse momento de demolição.

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Demolição, quebra, desumanização. Com o tempo, surgiram vários termos para nomear a perda subjetiva que foi se desnudando como prática sistemática e estratégica dos núcleos de poder das ditaduras e governos autoritários latino-americanos entre os anos de 1960 e 90. No Uruguai, a Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado foi intensamente debatida e criticada desde o instante de sua aprovação. Apesar disso, paralisou os processos de responsabilização judicial pelas violências cometidas por militares e polícias em território nacional desde o golpe de 1973 até o fim da ditadura, em março de 1985. A historiografia aponta para esse como um momento de desmobilização dos movimentos sociais e de frustração evidente de parte das esquerdas e da comunidade acadêmica. Esses setores haviam sido vitoriosos no plebiscito de 1989 convocado pelo Estado, e que legitimou a reforma constitucional necessária à punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura. Como resultado da Lei de Caducidade, debates e pesquisas sobre a ditadura e a transição ficaram como que suspensos.

Em fins dos anos de 1990, a memória das violações começou a se insurgir novamente, do fundo das políticas transicionais que tentaram condená-las ao passado. À frente dessa insubordinação, estiveram os incansáveis movimentos sociais por memória, verdade e justiça. Segundo uma das duplas teóricas mais citadas da historiografia da ditadura uruguaia, Aldo Marchesi e Vania Markarian, os testemunhos emergiram como uma necessidade de compartilhar em público as experiências traumáticas singulares e se transformaram em êxitos editoriais e referências centrais dos debates. Essas foram as circunstâncias de publicação do relato sobre Pedro – “Pedro não é um caso. É um relato. Mas um relato que remete somente a fatos reais e no qual muitas pessoas se fundem no protagonista que está no centro de minha história”, afirma Viñar.

A “onda progressista” no Cone Sul: Pepe Mujica, ex-guerrilheiro dos Tupamaros no Uruguai, foi presidente da República entre 2010 e 2015. Ao seu lado, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-sindicalista, liderou uma das maiores greves de operários na história do Brasil durante a ditadura brasileira; foi presidente da República entre 2003 e 2010. Wikimedia Commons.

A demolição de Pedro pode ser interpretada de muitas formas: como um fenômeno individual e coletivo que remete ao êxito do terrorismo psíquico como ferramenta essencial das ditaduras no Cone Sul; como ambiguidade constitutiva da luta política institucional; ou, talvez, como memória crítica da moral revolucionária experimentada pelas esquerdas latino-americanas na segunda metade do século XX. Também é possível pensar que o relato publicado mais de uma década após o acontecimento se constitua como um espaço de memória no qual o colaboracionismo adquire uma importante, embora problemática, legitimidade narrativa. Vestígio histórico da descrença na democracia liberal – que não é nada recente; estímulo à compreensão multifacetada de uma atmosfera política singular oposta, semelhante, próxima ou distante daquela que vivemos agora em quase toda a região, com exceção honrosa do Chile, que institucionaliza agora suas ondas de sublevação... Em todos os casos, a inferência jamais será de ordem moral ou moralizante: “o ‘crítico’ como o puro e intransigente versus o ‘cínico’ como o impuro e acomodatício”. Essa é uma história desidentitarizada.

Em 1993, Marcelo Viñar esperava que a existência de algumas dezenas ou centenas de pedros se convertesse em uma experiência universal nas sociedades submetidas à violência política, tal como afirma em seu relato. Quase 30 anos depois, diante da superposição de catástrofes acrescida pelo intervalo aparente da “onda progressista” na América Latina, que tipo de espectadores(as), leitores(as), ouvintes e autores(as) à esquerda alcançamos ser quando confrontados(as) pela tragédia política daqueles(as) que nos antecederam? Que partes de Pedro nos habitam ao longo de um dia de trabalho, de luto ou de “resistência”, como se tornou comum dizer? Estamos, enfim, demolidos(as)?

  1. Viñar, Maren; Viñar, Marcelo. Fracturas de memoria. Crónicas para uma memoria por venir. Colección Desafios. Ediciones Trilce: Montevideo, Urugay, 1993.

  2. A informação consta em entrevista concedida pelo psicanalista Marcelo Viñar ao professor Arnaldo Franco Junior em 21/08/2008, Ver em: Olho d´água, São José do Rio Preto, 6(1): 1-169, Jan.–Jul./2014.

  3. Todas as citações deste artigo de divulgação foram livremente traduzidas pela autora.

  4. A referência ao “fascismo naturalizado” no Brasil é tributária da entrevista concedida pelo historiador Leandro Pereira Gonçalves, professor da UFES, atualmente em fase de edição para disponibilização pública no portal que abriga esta coluna: historiadaditadura.com.br.

  5. Vinãr, Marcelo. Pedro o la demolición. Una mirada psicoanalítica sobre la tortura (París, 1976). In: Viñar, Maren; Viñar, Marcelo. Fracturas de memoria. Crónicas para uma memoria por venir. Ediciones Trilce. Colección Desafios. Montevideo, Urugay: 1993; pp. 32-44.

Referências:

AMILIVIA, Gabriela Fried. Trauma social, memoria colectiva y paradojas de las políticas de Olvido en el Uruguay tras el terror de Estado (1973-1985): memoria generacional de la post-dictadura (1985-2015). ILCEA [En línea], 26 | 2016, Publicado el 07 julio 2016, consultado el 10 diciembre 2020.

DAHÁS, Nashla. Historiografia da ditadura, memória e espaço público. O Cone Sul em perspectiva. Anais do 30° Simpósio Nacional de História - História e o futuro da educação no Brasil / organizador Márcio Ananias Ferreira Vilela. ANPUH-Brasil, 2019.

RICHARD, N. Memoria contemplativa y memoria crítico-transformadora, laFuga, 16, 2014.

VIÑAR, Maren; VIÑAR, Marcelo. Fracturas de memoria. Crónicas para uma memoria por venir. Colección Desafios. Ediciones Trilce: Montevideo, Urugay, 1993.

VIÑAR, Marcelo; FRANCO JUNIOR, Arnaldo. “Falar da tortura não é falar do torturado e da vítima, é falar da sociedade que é capaz de torturar”. Entrevista com o psicanalista Marcelo Viñar. Olho d´água, São José do Rio Preto, 6(1): 1.




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