• Mathews Mathias

A epifania da extrema-direita cristã nos EUA

No dia 6 de janeiro de 2021, quando uma multidão de extremistas pró-Trump invadiu o Capitólio dos EUA, foi difícil não reparar na profusão de símbolos cristãos que tremulavam nas faixas e bandeiras dos manifestantes. Enquanto venciam as frágeis barricadas e irrompiam pelas portas do Capitólio, homens e mulheres carregavam consigo dizeres como “Jesus salva!”, “Deus, armas e Trump”, “Você precisa de Jesus” e “Jesus é o meu Salvador. Trump é o meu Presidente”. Ao lado de representantes de vários grupos do amplo espectro da extrema direita estadunidense – supremacistas brancos e neonazistas, Proud Boys, teóricos da conspiração ligados ao QAnon e extremistas violentos do movimento MAGA (Make America Great Again) –, cristãos confirmaram uma crença fervorosa na ideia de que a eleição presidencial foi ilegítima, de que houve fraude eleitoral em massa e, principalmente, de que eles foram chamados para defender o país como patriotas contra uma ameaça à própria democracia. Assim, eles não estariam atacando a nação, mas salvando-a.

Nesse sentido, a invasão do Capitólio dos EUA foi vista por muitos extremistas não apenas como um ato político, mas religioso. O ataque foi feito em nome de Deus. Aqueles que quebraram janelas, pisotearam jornalistas e aterrorizaram congressistas sentiram como se estivessem diante de um ofício sagrado. Deus certamente estaria com eles. Ora, a participação ativa de cristãos na turba que desafiou a democracia estadunidense no início de janeiro não foi um raio em céu sereno. Basta retomar os termos da aliança selada entre líderes cristãos conservadores e Donald Trump na campanha presidencial de 2016.

Desde Ronald Reagan, em 1980, nenhum outro candidato à Casa Branca havia feito um apelo tão forte ao voto evangélico. Em 2016, Trump fez do voto de fé dos evangélicos, especialmente os brancos, uma das peças centrais de sua campanha. Embora se apresentasse como presbiteriano, Trump nunca foi reconhecido como um homem religioso. No entanto, escolheu Mike Pence, um notável evangélico conservador, para compor sua chapa e abraçou a agenda de movimentos pró-vida e da direita religiosa estadunidense.

Ao longo da campanha de 2016, Trump enviou uma série de cartas de compromisso para organizações conservadoras prometendo nomear juízes pró-vida à Suprema Corte, retirar fundos da Planned Parenthood, caso eles continuassem a apoiar programas a favor da interrupção da gravidez, e criar uma legislação impedindo que impostos fossem destinados ao financiamento de abortos. Assim, o então candidato republicano se tornou a esperança de que uma agenda conservadora fosse implantada de maneira mais aprofundada nos EUA, algo em que outros presidentes mais bem quistos pela direita religiosa, como George W. Bush, pouco conseguiram avançar.


Presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na Marcha pela Vida no dia 24 de janeiro de 2020, manifestação que ocorre anualmente em Washington. Reprodução

Em contrapartida, entre os católicos conservadores, Trump também obteve um apoio considerável, não só por conta de sua defesa dos valores da família tradicional e da oposição ao aborto e aos direitos da comunidade LGBTQI+, mas também por alimentar um forte sentimento anti papa Francisco. A eleição de Jorge Bergoglio em 2013 foi um choque para boa parte da Igreja Católica estadunidense e muitos católicos apresentaram resistência à ideia de ter um jesuíta latino-americano na cátedra de Pedro. Além disso, ao longo do pontificado, vários bispos passaram a acreditar que Francisco rompia com a tradição da Igreja em torno de temas como sexualidade e família, particularmente após a publicação da exortação apostólica Amoris Laetitia e diante do incentivo papal ao diálogo com grupos historicamente marginalizados pela Igreja.

Assim, Trump foi eleito em 2016 com amplo apoio de cristãos brancos e conservadores que encontraram nele um forte aliado no front das chamadas guerras culturais e um garantidor da liberdade religiosa, ainda que essa tal liberdade não incluísse os muçulmanos, por exemplo. Porém, ao longo do mandato, as igrejas estadunidenses não receberam muita coisa de Trump, exceto um punhado de juízes da Suprema Corte que deixaram claro que a revogação da legalização do aborto não seria alcançada por meios legais. Ainda assim, em 2020, católicos e evangélicos conservadores renovaram a sua confiança no presidente, que passou a ter uma aura profética para alguns movimentos cristãos de extrema-direita.

Ao longo da última campanha presidencial, várias lideranças religiosas utilizaram uma linguagem apocalíptica para interferir nas eleições e demonizar Joe Biden, o quarto católico a se candidatar à presidência dos EUA, depois de Al Smith, em 1928, John F. Kennedy, em 1960, e John Kerry, em 2004. Bispos referiram-se a Biden como um “mau católico” por seu apoio ao aborto legal e ameaçaram proibi-lo de comungar. Nos púlpitos e na mídia católica conservadora, padres reforçaram a incompatibilidade entre o catolicismo e a agenda do Partido Democrata, apontado como o “partido da morte”. A eleição virou uma batalha do Bem contra o Mal. Todos os cristãos que tivessem a intenção de votar em Biden deveriam estar prontos para encarar o fogo do inferno. Ao mesmo tempo, Trump recebeu afagos, orações e apoios silenciosos ou entusiasmados do clero e de muitos fiéis, que continuavam a ver nele um homem do bem e comprometido com os valores cristãos. Quem votasse nele, certamente poderia sonhar com a Terra Prometida e com a vida eterna.


Tear Gas outside United States Capitol. 6 January 2021. Autor: Tyler Merbler. Wikimedia Commons.

Por isso, quando a derrota de Trump foi confirmada, o Apocalipse tão alardeado durante a campanha encontrou os cristãos preparados para lutar pelo bem da Nação. Era chegada a hora de lutar contra o Mal. Católicos e evangélicos deram-se as mãos e, em oração, marcharam sobre o Capitólio para tentar impedir a confirmação da vitória de Biden, visto por eles como um fantoche das ideias da esquerda radical. Ao lado de outros extremistas, religiosos já não mais defendiam apenas os valores morais das suas igrejas, mas a religião da Nação, uma religião civil que venera a tradição, protege o status quo e constrói uma união nacional sob a supremacia branca e autoritária.


A invasão do Capitólio ocorreu coincidentemente no dia em que os cristãos celebram a manifestação de Jesus aos três reis magos. Porém, o que se viu em Washington naquele 6 de janeiro foi a epifania da extrema-direita cristã nos EUA. Cristãos conservadores revelaram ao mundo que é possível alcançar grandes feitos, ainda que aparentemente sejam derrotados. Enquanto o mundo reagia com horror e espanto à invasão, a extrema-direita usava a insurreição como uma ferramenta para recrutar e mobilizar mais pessoas em prol de ideias extremistas e antidemocráticas.

Muitas lideranças religiosas conservadoras lançaram notas de repúdio à violência da invasão ao Capitólio, mas não admitiram a cumplicidade com o ambiente de radicalização e a demonização do processo eleitoral. Outros representantes da mídia comandada por cristãos de extrema-direita preferiram a versão de que a violência havia sido obra de infiltrados do movimento antifascista. É bem verdade que muitas outras lideranças cristãs foram contrárias à invasão do Capitólio e se manifestaram em defesa da democracia. Algumas endossaram abertamente a candidatura de Biden e se engajaram na sua campanha. No entanto, ainda é muito comum que esses líderes progressistas se refiram aos conservadores como “falsos cristãos”, que não conhecem o “verdadeiro Evangelho de Cristo”. Muitos intelectuais também sentem dificuldade de reconhecer os religiosos que cerraram fileiras com os invasores do Capitólio como “verdadeiros cristãos”.

No entanto, apontar quem são os verdadeiros e os falsos cristãos, separar o joio do trigo, não resolve nada. Afinal, quem pode ter certeza de possuir a boa medida para definir os fiéis e os infiéis? Importa mais entender a formação desses cristãos que não desistiram do trumpismo: quem são eles, quais são as suas ideias, como as suas visões de mundo são forjadas nas igrejas e na própria sociedade. É fundamental ver nestes cristãos os fiéis comuns que vão à igreja todos os domingos e não apenas a caricatura de extremistas que simplesmente usam o nome de Deus para fazer o Mal. Eles não são estranhos àquela sociedade, são imagem e semelhança de tantos homens e mulheres estadunidenses que, embora não tenham chegado ao ponto de invadir o Capitólio, pensam como muitos daqueles invasores. Sentem-se representados por eles.

Enquanto estivermos preocupados em apontar quem são os verdadeiros e os falsos cristãos, estaremos deixando de lado a complexidade das igrejas e do cristianismo que, muitas vezes, revela a sua face humana e, em outras tantas, a face da barbárie, quando não as duas caras ao mesmo tempo. A relação do trumpismo com o cristianismo nos EUA não foi um parêntese na história religiosa e política do país. A aliança forjada em 2016, embora se encontre atualmente ameaçada por Biden, não está destinada a terminar com o governo do novo presidente, por mais urgente e necessário que isso seja para o triunfo da democracia nos EUA.


Crédito da imagem destacada: Apoiadores de Donald Trump unem-se em oração fora do Capitólio dos EUA em Washington, 6 de janeiro de 2021, onde o Congresso dos EUA se reuniu em sessão conjunta para certificar os votos do Colégio Eleitoral para o presidente Joe Biden. Reprodução.

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