• Mathews Mathias

A Igreja Ortodoxa Russa e a guerra na Ucrânia

A invasão russa da Ucrânia está prestes a completar cinco meses com repercussões que ultrapassam a esfera militar e política. Além dos efeitos econômicos – que já eram previstos pela importância da Rússia na produção de energia e pelo papel da Ucrânia nas exportações globais de grãos –, a guerra também tem provocado intensos debates no interior da Igreja Ortodoxa Russa. Em março, esta ilustre desconhecida do mundo ocidental ganhou destaque na mídia mundial por meio de Cirilo, patriarca de Moscou, que, em um sermão apocalíptico na Catedral de Cristo Salvador em Moscou, afirmou que a “operação especial” de Vladimir Putin na Ucrânia foi resultado da rejeição de “valores fundamentais” por aqueles que “reivindicam o poder mundial”. Esses poderes nefastos, segundo o patriarca, “exigem que você realize paradas do orgulho gay como um teste de lealdade”. Em outras palavras, Cirilo defendeu uma guerra santa da Grande Rússia contra o “Mal” representado por paradas LGBTQIA+ do Ocidente.


O presidente russo, Vladimir Putin, beija Kirill, patriarca de Moscou e de todas as Rússias, em celebração em 2013 — Foto: Reuters/Maxim Shemetov. Reprodução.

O sermão do patriarca de Moscou não se configura exatamente uma novidade, sobretudo para um Ocidente já familiarizado com a retórica da guerra cultural que circula entre as direitas autoritárias nas últimas décadas. Além disso, já se conhece a política abertamente homofóbica da Rússia, que mantém uma lei que proíbe propagandas de “relações sexuais não-tradicionais” para menores, que não garante o casamento igualitário e silencia sobre a terrível perseguição de homens gays na República da Chechênia. Em 2020, Putin, alinhado com os valores da Igreja Ortodoxa, chegou a dizer que enquanto o Kremlin estiver sob o seu comando, “não haverá ‘pai um’ e ‘pai dois’, serão ‘papai e mamãe’” – algo que soa como música para os ouvidos de ícones da direita global, como Jair Bolsonaro, Donald Trump, Matteo Salvini, Marine Le Pen e Viktor Orbán.

No entanto, para além dos alertas contra a “decadência ocidental”, a posição do patriarca de Moscou evidencia um papel específico que a religião tem exercido na invasão da Ucrânia. Em abril, ao celebrar uma missa na imponente Catedral das Forças Armadas – erigida em Moscou há dois anos como parte das comemorações pelo 75º aniversário da vitória dos russos sobre a Alemanha nazista –, Cirilo emulou o discurso de Putin e se dirigiu ao Exército russo para lembrá-lo de que, assim como na Segunda Guerra Mundial, as suas tropas estavam lutando contra o fascismo na Ucrânia. Além disso, recordou que há alguns séculos – um piscar de olhos na memória do Oriente cristão –, a sede da Igreja Ortodoxa ficava em Kiev e que Rússia e Ucrânia estão unidas como “um só povo, ligado pelo destino histórico” selado na mesma pia batismal. Na visão do patriarca de Moscou, os culpados pela separação dos dois povos seriam “várias forças” do Ocidente que, desde a Idade Média, se empenham na contenda entre os irmãos russos.

Dessa forma, além de simplesmente negar o direito da Ucrânia de existir como uma nação soberana, Cirilo transfigura-se no grande intérprete de uma teologia pós-soviética que guarda as suas raízes no mito de que, após o saque de Constantinopla em 1204, o cristianismo ortodoxo seria o último bastião do verdadeiro cristianismo. Segundo Katherine Kelaidis, estudiosa dos ortodoxos contemporâneos, na perspectiva do líder ortodoxo – e de Putin –, a Rússia não é inimiga do Ocidente e Moscou é, na verdade, destinada a reconquistar o berço do cristianismo eslavo, encravado em Kiev. Ao mesmo tempo, é apresentado como o grande imperador e herdeiro legítimo do Império Romano e da cristandade. Nesse sentido, justificar a invasão russa, Cirilo está argumentando que a Rússia é a legítima líder do Ocidente.

Essa perspectiva pode parecer chocante para aqueles que, na Europa Ocidental e na América do Norte, aprenderam uma versão muito diferente da História e que veem o centro do poder e da cultura ocidentais se movendo de Roma para Madri, passando por Paris, Londres e Washington. É, no entanto, uma visão da História como qualquer outra narrativa sobre o passado que circula entre diferentes civilizações, ainda que não compartilhada por todos. Vale lembrar que o tom empregado por Cirilo não é muito diferente dos discursos de evangélicos brancos americanos que enxergam os Estados Unidos como a futura Nova Jerusalém, uma nova Terra Santa. Na verdade, não são poucos norte-americanos que se creem parte de uma nação separada das outras e que acreditam que a América recebeu uma missão especial de Deus. De Obama a Biden, tendo passado por Trump, a doutrina do destino manifesto dos EUA, que justificaria as intervenções militares e políticas em outros países cujo governo não lhes agrada, segue ativa e alimentando o nacionalismo cristão.

Apontar a semelhança entre os discursos do patriarca de Moscou e de figuras do Ocidente não os torna legítimos e éticos. Pelo contrário, a afinidade entre eles deve servir de alerta. Cirilo acredita que as fronteiras da Ucrânia não importam porque a Rússia tem uma missão global. Alguns americanos também acreditam na missão civilizadora dos EUA. Ambos querem ser a Roma dos tempos antigos, que propagou o Evangelho cristão por vastas regiões, sem que a tolerância tenha se manifestado como um dos fatores decisivos para a expansão do cristianismo primitivo por metade do Império Romano em apenas três séculos. Mais do que caçar bandidos e mocinhos, anjos e demônios, é preciso que as forças progressistas – cristãs ou não – denunciem o conjunto: Igrejas e grandes potências lutando por seus interesses estratégicos, econômicos, territoriais e eclesiásticos às custas de milhares de vidas.

Como citar este artigo:

MATHIAS, Mathews Nunes. A Igreja Ortodoxa Russa e a guerra na Ucrânia. História da Ditadura, 3 ago. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/aigrejaortodoxarussaeaguerranaucrania . Acesso em: [inserir data].


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