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A Coleção Contos Rápidos – Parte I: O Menino do Gouveia (1914)

Nesta edição da coluna A história pelo buraco da fechadura, dou início a uma série de seis textos dedicados aos números remanescentes da Coleção Contos Rápidos, publicada entre 1914 e 1916 pelo jornal carioca O Rio Nu (1898-1916). Vamos começar pelo conto O Menino do Gouveia, sexto volume da coleção, que tem como protagonista um jovem homossexual chamado Bembem, que ao longo da trama narra a seu amante a descoberta da própria sexualidade, do despertar de sua libido até a consumação do ato sexual. Antes de conhecermos a história de Bembem, no entanto, cabem algumas palavrinhas sobre a Coleção Contos Rápidos.


A Coleção

Quem acompanha a coluna já conhece um pouquinho da história do jornal O Rio Nu, o mais ilustre e longevo representante dos “jornais alegres”, gênero de periódicos que se popularizou no Brasil durante as primeiras décadas do século XX. Durante o período em que circulou, esse jornal deu o que falar, graças ao tom satírico com que abordava temas relacionados à sexualidade e às novas formas de diversão e prazer que pipocavam no Rio de Janeiro, então capital federal. Apesar das polêmicas que suscitou, O Rio Nu se manteve mais ou menos dentro dos limites do moralmente tolerável para a época, já que seus editores recorriam ao uso metáforas e palavras de duplo de sentido, o que permitia que certas coisas fossem comunicadas sem serem realmente ditas.

A partir de 1904, contudo, o jornal passaria a contar com a seção Biblioteca d’O Rio Nu, onde eram anunciados livros e álbuns de fotografia, muitos dos quais editados pela própria folha. Como aponta Cristiana Schettini Pereira (1997, p. 185), essa estratégia permitia aos redatores maiores liberdades de linguagem: uma vez que os livros circulavam de maneira mais discreta que os periódicos, neles era possível escrever – e descrever –, com todos os pingos dos is, o que apenas se insinuava nas páginas do jornal.

Esse foi o caso da Coleção Contos Rápidos, que começou a ser anunciada em 1914 e permaneceu em catálogo até a extinção do jornal, em 1916, chegando a ter vinte números publicados. Dentre eles, pelo menos seis sobreviveram ao tempo e hoje podem ser consultados gratuitamente no setor de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. São eles: O Menino do Gouveia (n° 6), A Pulga (n° 7), Na Zona... (n° 11), O Brinquedo (n° 12), O Cachorro (n° 13) e O Marchante (n° 18). O reclame informava que todos os títulos eram escritos “em linguagem ultra livre” e narravam “as mais pitorescas cenas de amor para todos os paladares”, cada um acompanhado de uma “gravura tirada ao natural”.



Primeiro anúncio da Coleção Contos Rápidos. O Rio Nu, 03/01/1914, p. 4. Hemeroteca Digital - Fundação Biblioteca Nacional.

Os livretos tinham cerca de quinze páginas e eram impressos no formato ½ ofício, em papel monocromático e vinham acompanhados de uma gravura ou reprodução fotográfica, estampando corpos nus ou em pleno ato sexual. A identidade dos autores era protegida por um pseudônimo e cada volume foi assinado por um personagem diferente, entre os quais figuravam nomes que já haviam aparecido no jornal O Rio Nu como colunistas. Além do título e da autoria, na capa eram indicados ainda o local de edição e a editora, também fictícios: constava que haviam sido publicados pela Casa Editora Cupido & Comp., localizada na Ilha de Vênus.

Quem trabalha com textos e imagens percebidos como pornográficos no Brasil sabe que um dos maiores desafios costuma ser, justamente, o acesso a estas fontes. Quanto mais recuamos no tempo, maior tende a ser a dificuldade. Sendo assim, a Coleção Contos Rápidos já seria preciosa apenas por ter alguns de seus números disponíveis para consulta, mas ela também tem o mérito de trazer enredos ambientados no Rio de Janeiro dos anos 1910. Assim, os personagens ali representados, seu linguajar, os espaços que ocupam e pelos quais circulam podem nos ajudar a entender melhor determinados imaginários latentes durante a belle époque carioca, em especial os que se cristalizaram em torno de práticas e desejos sexuais dissidentes.


O último reclame da Biblioteca d’O Rio Nu, publicado em dezembro de 1916. Hemeroteca Digital – Fundação Biblioteca Nacional.

O Menino do Gouveia

Neste primeiro momento, vamos conhecer melhor o sexto volume da coleção, O Menino do Gouveia, anunciado pela primeira vez no jornal em 7 de fevereiro de 1914. O conto é assinado por Capadócio Maluco e seu enredo gira em torno da descoberta sexual do jovem homossexual Bembem. Na trama, Bembem está na cama com Capadócio e narra ao amante os acontecimentos – e sensações – que marcaram esse processo. Em resumo, o jovem conta que começou a perceber seu interesse por outros homens ainda na adolescência, e que nutria um desejo especial pelo marido da tia, a quem acaba se declarando. Diante da rejeição violenta do tio, ele foge de casa e vaga pelos parques e banheiros públicos do Rio de Janeiro, em busca de um parceiro. No final do dia, cansado e frustrado, Bembem se senta no Largo do Rocio – como também era conhecida a Praça Tiradentes – onde é abordado por Gouveia, um homem mais velho, com quem tem sua primeira relação sexual.

Uma nota da edição de 14 de fevereiro de 1914 chama a atenção dos leitores para o lançamento de O Menino do Gouveia. Hemeroteca Digital – Fundação Biblioteca Nacional.

Para o historiador James Green (2000), este conto apresenta “incrível similaridade” com os relatos sobre o comportamento público de homens homossexuais no Rio de Janeiro durante as primeiras décadas do século XX [I]. A respeito do título, Green (2000, p. 70) destaca que, naquele período, os termos “Gouveia” e “fanchono” eram gírias comuns no cotidiano carioca para designar homens mais velhos ou lidos socialmente como “masculinos” que se interessavam por homens mais jovens aos quais era atribuído um comportamento considerado “feminino”.

Valmir Costa (2020, p. 445) aponta que um fato verídico ocorrido em 1906 na zona norte do Rio foi o que motivou a associação entre o nome “Gouveia” e as práticas homossexuais atribuídas aos chamados “fanchonos”. Na ocasião, um homem chamado Manoel Gouveia foi acusado de violentar sexualmente um homem de quarenta anos, e o caso virou manchete dos jornais. Um ano depois, uma investigação policial concluiu que o acusado era inocente, mas, a esta altura, seu nome já estava associado a determinadas práticas sexuais. Desde que se espalhou a notícia, o jornal O Rio Nu passaria a veicular piadas, anedotas, charges e versinhos invocando Gouveia, nome que algumas vezes remetia aos homens que apreciavam o sexo anal de uma maneira geral – com outros homens, mulheres ou ambos – e, em outras, encarnava uma figura mítica e furtiva, que atacava à força jovens e meninos e os violentava [II].

Os homens percebidos como “passivos” da relação, por sua vez, costumavam ser denominados “frescos” ou “putos”, sendo este último um termo também muito utilizado em O Menino do Gouveia. Capadócio se referia a Bembem como um “puto matriculado” e o adjetivo foi reiterado ao longo da história pelo tio do garoto e por Gouveia. Como demonstra Green (2000, p. 63), o estereótipo que associava prostituição e homossexualidade masculina – em especial se esta última fosse identificada a partir de um comportamento considerado “feminino” – era comum no período [III]. Desse modo, os termos “puto” e “fresco” eram amplamente empregados para designar homens aos quais eram atribuídos trejeitos femininos e que, supostamente, desempenhavam um papel entendido como “passivo” na relação sexual. Eles se diferenciariam do “fanchono”, do qual seriam objeto de desejo e que seria o sujeito cuja imagem e postura públicas vistas como viris permitiam, segundo Green (2000, p. 71), certa invisibilidade social.


Além disso, o Largo do Rocio desempenha um papel importante na narrativa, por ser onde Bembem finalmente encontra um parceiro. Nome popular da Praça Tiradentes [IV], o Largo era um dos locais da cidade associados às práticas homossexuais masculinas. Na região, em que se encontravam os terminais dos bondes que ligavam o centro da cidade à zona norte, havia uma enorme quantidade de teatros, cafés-concerto, cinematógrafos, bares e cabarés, além de bordéis e pensões, onde atendiam prostitutas (GREEN, 2000, p. 59-60). Em meio a esse ambiente de intensa atividade boêmia e sexual, ocorriam também encontros entre homens – o que era facilitado, de acordo com James Green (2000, p. 56 e 61), pela disposição de bancos e arbustos que compunham o Largo [V].

É famosa, por exemplo, a descrição que o poeta Luiz Edmundo (2003, p. 89) fez dos rapazes que frequentavam o lugar no limiar do século XX: “moços de ares feminis, que falam em falsete, mordem lencinhos de cambraia, e põem olhos acarneirados na figura varonil e guapa do Senhor D. Pedro I, em estátua”. Também o jurista Francisco José Viveiros de Castro (1934, p. 221-222) observou que o Largo havia se tornado “célebre por ser o lugar onde à noite reuniam-se os pederastas passivos a espera de quem os desejasse”. Já Vivaldo Coaracy (1988, p. 102) lamentou, em suas memórias, que o jardim central da Praça fosse frequentado à noite “por certa classe de sórdidos viciados que emprestam péssima fama ao nome do Largo”, referindo-se de maneira pejorativa e preconceituosa aos homens que se relacionavam com outros homens no local.

Para finalizar...

O Menino do Gouveia nos permite refletir sobre muitas questões – algumas ainda bastante pertinentes na atualidade. Porém, não seria possível sequer pontuar todas elas nesse espaço, e muito menos abordá-las de maneira mais aprofundada. Nesse texto, cito autores – como James Green, Cristiana Schettini Pereira e Valmir Costa – que se dedicaram a discutir alguns dos aspectos importantes da narrativa, e cuja leitura recomendo aos interessados. Mas o tema ainda pode render muito pano para manga.

Creio que um debate que merece ser aprofundado a respeito do conto, seus personagens e os imaginários que eles mobilizam, seja a sexualização de crianças e adolescentes e a aparente naturalidade com que esse tema é explorado por jornais como O Rio Nu durante as primeiras décadas do século XX. A narrativa também nos permite refletir em torno dos estereótipos que cercavam a homossexualidade masculina nesse período e que, como vimos, se faziam ecoar não apenas na literatura tida como pornográfica, mas também em discursos médicos, jurídicos e de memorialistas. Remeter essas representações e discursos ao contexto em que foram produzidos pode nos ajudar a entender melhor a sociedade brasileira de então, mas também a permanência de determinadas questões na atualidade.

Apesar da pertinência desses e de outros debates, aqui nos concentramos em apenas alguns dos possíveis diálogos que a narrativa estabelece com o Rio de Janeiro dos anos 1910, sobretudo o uso que esta faz de determinados espaços e palavras que integravam o imaginário sexual da época e, mais especificamente, aquele que se construiu em torno do comportamento de homens que se relacionavam sexualmente com outros homens. Como sempre, a ideia não é esgotar o assunto, mas despertar a curiosidade a seu respeito, para que temas e fatos dessa natureza sejam, cada vez mais, objeto de interesse acadêmico.

E, por falar nisso, para aqueles que quiserem conhecer melhor a história de Bembem, a editora O Sexo da Palavra reeditou recentemente o conto O Menino do Gouveia, que pode ser adquirido por meio desse link. Na próxima edição da coluna, continuo a apresentação da Coleção Contos Rápidos, com o sétimo volume da coletânea, intitulado A Pulga.

NOTAS:

[I] Para Green (2000, p. 69), tal proximidade seria um indicativo de que seu autor anônimo, se não participava deles, conhecia muito bem os intercursos sexuais entre homens nos parques públicos da cidade.

[II] Em O Menino do Gouveia, não sabemos que idade exata Bembem tinha quando fugiu de casa e conheceu Gouveia, mas sabemos que ele era jovem. O personagem de Gouveia no conto, entretanto, age com o consentimento do rapaz e em nenhum momento se mostra agressivo ou ameaçador.

[III] A conexão persistiria até a segunda metade do século XX.

[IV] A antiga Praça da Constituição havia sido rebatizada como Praça Tiradentes logo após a Proclamação da República. No dia a dia da cidade, contudo, continuou sendo Largo do Rocio.

[V] No conto, Bembem chegou ao Largo após intensa uma peregrinação pelos banheiros públicos da cidade, locais também visitados por homens que pretendiam um encontro sexual fortuito com outros homens.


 

REFERÊNCIAS:

COARACY, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte: Itatiaia: São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988.

COSTA, Valmir. O menino do Gouveia: a história real que inspirou o primeiro conto homoerótico brasileiro de 1914. Projeto História, São Paulo, v. 69, pp. 419-457, Set.-Dez., 2020.

EDMUNDO, Luís. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília: Edições do Senado Federal, 2003.

GREEN, James. Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo, Editora UNESP, 2000.

PEREIRA, Cristiana Schettini. Um gênero alegre: imprensa e pornografia no Rio de Janeiro (1898-1916). Dissertação (Mestrado em História) - Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 1997.

VIVEIROS DE CASTRO, Francisco José. Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual. Rio de Janeiro: Libraria Editora Feitas Bastos, 1934.


Como citar este artigo:

CARDOSO, Erika. A Coleção Contos Rápidos – Parte I: O Menino do Gouveia (1914). História da Ditadura, 19 set. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/acolecaocontosrapidos-parteiomeninodogouveia-1914 . Acesso em: [inserir data].


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