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  • Foto do escritorCarlos Artur Gallo

Como a los nazis les va a pasar, adonde vayan los iremos a buscar…

Após uma demora (quase) injustificada, retomo os meus trabalhos como colunista do História da Ditadura. De modo semelhante ao que fiz em minha última coluna, publicada em dezembro passado, me permitirei compartilhar com as leitoras e os leitores um texto marcado por minha experiência pessoal. Feita esta advertência, dou início ao meu relato.

No final de abril, depois de mais de dois anos de home office, saí do país pela primeira vez. Estive em Buenos Aires para participar de um evento acadêmico no Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti, situado na antiga Escuela de Mecanica de la Armada (ESMA), um dos muitos centros clandestinos de repressão mantidos pela ditadura argentina (1976-1983).


Escuela de Mecanica de la Armada ESMA – Centro de Detenção e Tortura. Autor: Adam Jones. 18 jul. 2011. Wikimedia Commons.

Após dois anos bastante difíceis, marcados pela pandemia e pelo conjunto de problemas por ela gerados e/ou potencializados, voltar a Buenos Aires me permitiu refazer, de algum modo, meus primeiros passos nos estudos sobre as ditaduras do Cone Sul, a justiça de transição e as políticas de memória. Conheci a ditadura argentina, numa perspectiva acadêmica, através da leitura de trabalhos de dois professores: Raúl Enrique Rojo, sociólogo argentino radicado no Brasil a quem me referi em minha última coluna, e Enrique Serra Padrós, historiador uruguaio radicado no Brasil e falecido em dezembro de 2021.

Ambos, cada um em sua área do conhecimento, me ensinaram, com profundidade, o que caracterizou a ditadura nesse país tão próximo e, por vezes, tão distante do nosso. Com eles, aprendi como se deu a transição, como as lutas por memória, verdade e justiça se articularam, como e quando os elementos que embasaram as políticas de memória foram estabelecidos. Com as aulas e dezenas de atividades organizadas pelo Enrique entre 2008 e 2012, compreendi verdadeiramente – e para além do óbvio – a dimensão da luta das madres e abuelas da Plaza de Mayo, que travam uma batalha sem fim contra o esquecimento.

Foi também com o Enrique, em novembro de 2013, que estive pela primeira vez no Centro Cultural Haroldo Conti. Eu era um jovem doutorando que tinha cismado em fazer uma tese comparando o Brasil e a Argentina. Ele já era – ou talvez sempre tenha sido – o professor que, mesmo sem nenhuma obrigação, fazia questão de acolher jovens pesquisadoras e pesquisadores em formação – como eu, que dava meus primeiros passos na pesquisa que resultaria em minha tese de doutorado, defendida em abril de 2016. Poder estar novamente no Centro Cultural para apresentar meu trabalho foi, por si só, uma experiência marcante. Por uma feliz coincidência, minha viagem para Argentina ocorreu na mesma semana em que se comemoraram os quarenta e cinco anos da primeira marcha das madres da Plaza de Mayo.

Finalizada minha participação no seminário realizado na antiga ESMA, fui para o centro da capital portenha, me dirigindo à mítica Plaza de Mayo. Fazia um frio sutil, de outono. O sol se escondia, por vezes, nas nuvens. Lá, eu e centenas de pessoas tivemos a chance, cada vez mais rara, de ver as madres pessoalmente. Marchar com elas. Ouvir suas vozes. Ver seus rostos. Digo que se trata de uma chance cada vez mais rara uma vez que a idade avançada das mães de mortos e desaparecidos já não permite que as sobreviventes estejam sempre reunidas. Afinal, a maior parte daquelas que ainda conseguem ir aos encontros está na casa dos oitenta aos noventa anos. Muitas morreram. Outras não podem mais sair de casa devido a outros fatores, como o contexto pandêmico sob o qual ainda vivemos. Enfim, após uma série de discursos em homenagem ao aniversário de quarenta e cinco anos da primeira ronda das madres, fomos convidados a marchar com elas. Cortando o silêncio inicial da caminhada e a emoção inerente ao momento, começaram a ecoar gritos reivindicando por memória, verdade e justiça. Nomes de desaparecidos foram evocados. Canções de protesto foram entoadas.


– 30 mil compañeros detenidos desaparecidos – grita uma pessoa no microfone.

– Presente! – respondem as pessoas marchando.


Uma voz feminina, quase inaudível no início, começa a cantar: ...Olé. Olé. Olé. Olá. /

Olé. Olé. Olé. Olá. /

Como a los nazis les va a pasar. /

Adonde vayan los iremos a buscar…


Em poucos segundos, dezenas de vozes somaram-se e cantaram junto essa e outras canções, que marcam a trajetória de lutas das madres em suas mais de quatro décadas.


Madres de la Plaza de Mayo. Fonte: Twitter/Prensa Madres.

É curioso, mas acho que, pela primeira vez desde que comecei a estudar/pesquisar o tema das políticas de memória, ficou claramente evidenciada, para mim, a conexão que a demanda dos familiares de vítimas da ditadura argentina possui com as vítimas do nazi-fascismo. Não apenas metaforicamente, na música entoada na manifestação: o fato é que a luta por justiça das mães que fundaram as principais associações de Direitos Humanos da Argentina contemporânea se imbrica às lutas por justiça que pautaram o contexto imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial. Afinal de contas, se podemos reivindicar – sem dúvidas, tergiversações ou relativizações – a punição dos crimes do nazismo, por qual razão não poderíamos reivindicar a punição dos crimes das ditaduras de Segurança Nacional?

Foram perguntas assim que me interpelaram há mais de dez anos nas aulas do professor Rojo e nos eventos organizados pelo Padrós. Foram perguntas assim que mudaram os rumos da minha vida acadêmica, profissional e, consequentemente, pessoal. Foram perguntas assim que me fizeram querer entender os motivos pelos quais uma sociedade não pode (ou não deveria) abdicar da luta por justiça.

Encontrar os criminosos onde quer que estejam. Clamar por justiça. Não esquecer dos crimes que foram cometidos e do sofrimento causado pelas ditaduras. Não esquecer, igualmente, de cantar, viver, seguir marchando, seguir lutando para que a justiça, ausente no passado, se realize no presente ou, quem sabe, no futuro: eis, diante de nós, o grande exemplo das madres da Plaza de Mayo. Eis, diante de mim mesmo, minha profissão de fé acadêmica e cidadã. Eis aqui, compartilhado com todas e todos que lerem este texto, o meu tributo ao professor e amigo Enrique Serra Padrós, que me ensinou que as lutas por memória, verdade e justiça são como a vida: nada lineares, cheias de incertezas, avanços e recuos, mas infinitas enquanto durarem os ideais de quem as carrega.

Enrique Serra Padrós. Foto. Igor Sperotto. Extraclasse. Reprodução.

Créditos da imagem destacada: Mãe e filha da Plaza de Mayo, 1982. Foto: Adriana Lestido. Fonte: socialistamorena.com.br.



Como citar este artigo:

GALLO, Carlos Artur. Como a los nazis les va a pasar, adonde vayan los iremos a buscar... História da Ditadura, 15 ago. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/comoalosnazislesvaapasar-adondevayanlosiremosabuscar. Acesso em: [inserir data].


 

  1. Iniciadas em abril de 1977, as marchas das mães de desaparecidos políticos começaram a ser realizadas a partir do momento em que a polícia disse às familiares de vítimas da ditadura que elas não poderiam ficar em frente à Casa Rosada, sede do Governo Argentino, demandando respostas sobre o paradeiro de seus entes queridos levados por agentes da repressão. Uma vez que a polícia não podia impedir essas madres de circular, andar em círculos na Plaza de Mayo foi a forma de protesto adotada pelas fundadoras do movimento.

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