• Anderson Guimarães

Guerra fria na Europa, “Guerra quente” na África I: Moçambique e Angola

Atualizado: 3 de ago.

Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem.”

Jean-Paul Sartre.



É muito comum encontrarmos em sites de divulgação histórica, notas de rodapé de dissertação e teses, livros didáticos dos ensinos fundamental e médio, e, também, no “senso comum”, a afirmação de que o segundo pós-guerra, geralmente chamada de Guerra Fria (1945-1991), foi um confronto de ameaças e não de embate bélico. Por esta lógica, o período teria sido marcado por uma forte corrida armamentista e espacial, somada ao reforço das ideologias capitalista (Ocidente) e socialista (Oriente) nos aspectos econômicos.

Ora, essa afirmação pode até ser verdadeira se olharmos apenas para o continente europeu ou hemisfério norte como um todo, que tiveram, durante as duas grandes guerras, um cenário de batalhas entre quase todos os países da Europa, com a ajuda de nações dos demais continentes. Com o segundo pós-guerra, o “velho continente” vivenciou poucos conflitos armados durante os 46 anos de frieza de sua guerra. No pós-guerra fria, a Guerra da Ucrânia se tornou uma exceção à regra europeia no século XXI, sucedendo confrontos armados pós-guerra fria, como os ocorridos na Bósnia (1992-1995) e no Kosovo (1999).


Mapa do continente africano. Wikimedia Commons.

Entretanto, outros países, como nos continentes africano e asiático, não tiveram essa sensação de “paz sob ameaça”. Na África, objeto da reflexão deste texto, a paz foi exceção, principalmente durante os anos do segundo pós-guerra. Focalizando no século XX, podemos encontrar diversos confrontos armados que, ora eram mais localizados, ora mais globalizados. Muitas “guerras quentes” aconteceram em territórios do hemisfério sul, sendo estes territórios colônias de potências europeias ou nações independentes.


Com conjunturas muito diferentes, a depender da época, muitas das autodeterminações nacionais em África só foram alcançadas por meio da guerra. As etnias envolvidas, a mentalidade colonial dominante e as ideologias políticas anti-imperiais (liberalismo, socialismo, comunismo, pan-africanismo, islamismo, dentre outras.) eram variavam bastante de região para região. Destaco dois países para demonstrar que a Guerra Fria só ocorreu no hemisfério norte. Primeiramente, falaremos sobre Moçambique.


Moçambique

O primeiro território é o de Moçambique, que embora estivesse sob a ocupação portuguesa desde o século XV, passou a se tornar uma colônia de fato apenas no século XIX. Moçambique tem peculiaridades em sua história e no processo de relacionamento social com o ultramar lusitano. Banhada pelo Oceano Índico, com as rotas marítimas mais ao leste do hemisfério sul, tendo uma civilização mesclada com aspectos das sociedades do oriente e do ocidente africano, essa ex-colônia tem na sua geografia política proximidades com a exploração na nação sul-africana ao sul e hábitos sociais muçulmanos ao norte. Sendo almejado como ponte terrestre entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, no sonhado mapa cor-de-rosa da Conferência de Berlim (1884-1885), Moçambique era considerada “irmã” de Angola e Guiné-Bissau na política ultramarina portuguesa.


As suas duas “guerras quentes” se deram a partir de 1964: a guerra de libertação/colonial (1964-1975) e a guerra civil (1975-1991). De um lado, estava a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, de outro, a polícia política portuguesa (PIDE/DGS). Apesar de diversa, a Frelimo defendia um socialismo africano de origens leninistas (socialismo soviético). Sua luta, contudo, deu-se com o uso de táticas maoistas. Com base na estratégia de guerra prolongada, que privilegiavam guerrilhas rurais, a Frelimo usou o tempo e o espaço a seu favor, tendo em vista sua demografia menos urbana. Por isso, quanto mais o tempo passava, mais território e mais conscientização camponesa se somavam à luta, até que essas tropas cercassem as poucas regiões urbanas, onde estavam as delegacias policiais.


Nos embates coloniais, a guerra em Moçambique foi somente contra os portugueses, haja vista que as discordâncias dos dirigentes eram resolvidas por dentro das reuniões da frente de libertação. No seio da frente de libertação, tanto intelectuais oriundos da Casa do Estudante do Império (CEI), instituição educacional portuguesa, quanto trabalhadores, principalmente camponeses e mineradores, perceberam a exploração de empresas estrangeiras no sistema colonial. Representando o socialismo, a Frelimo lutou contra Portugal, que representava o capitalismo imperial.


Entre as armas brancas e de fogo (na bandeira do país há uma enxada e uma metralhadora AK-47) da guerrilha, o país sentiu fisicamente os efeitos da guerra ideológica travada na retórica da Europa. Todavia, após a saída dos europeus, a frente de libertação se fragmentou, entrando em uma Guerra Civil muito densa uns contra os outros. A outra facção política formada era a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) que durou de 1975 até 1991 como movimento guerrilheiro rival à Frelimo, de ideologia anticomunista e simpática a regimes autoritários de direita na África.


Bandeira de Moçambique. Reprodução.

Ao longo do tempo, a Renamo assumiu o papel do capitalismo no macrocenário da bipolarização e sua disputa se deu mais no campo das armas do que das ideias, o que só se encerrou em 1991, na sequência da derrocada da União Soviética e do bloco socialista. Os moçambicanos viram seu país destroçado pelas décadas de guerra e, a partir do fim delas, eles esperançavam dias menos conturbados do que aqueles em que a guerra fria havia se tornado guerra quente.

Angola

O segundo território é Angola, antiga colônia que foi controlada por portugueses e holandeses, só sendo autodeterminada pelos nativos depois de quinhentos anos de colonização. A pluralidade histórico-cultural da formação social que percorreu as fronteiras angolanas se assemelha com a do Brasil, ainda mais se considerarmos o número monstruoso de escravizados que vieram de Angola durante os trezentos e cinquenta anos de tráfico. Banhada pelo Oceano Atlântico ao sul, a ex-colônia é conhecida pela exuberante paisagem, pela zona portuária estratégica e pelas riquezas naturais (café, petróleo e ouro), que conferiu a ela status diferenciado nos olhares dos colonizadores europeus durante sua ocupação até a guerra de independência.

Em Angola, houve três “guerras quentes”: a guerra de libertação (1961-1975), a primeira guerra civil (1977-1990) e a segunda guerra civil (1992-2002). Focando nas duas primeiras, período que se estende até o fim da União Soviética (1991), logo a Guerra Fria no hemisfério norte, os angolanos conviveram com três movimentos que lutavam prioritariamente contra Portugal. Ao mesmo tempo em que o Movimento pela Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) confrontaram a polícia portuguesa. Estes grupos se enfrentavam em zonas rurais e urbanas, guiados por bandeiras diferentes: o primeiro defendia o leninismo, o segundo o pan-africanisno e o terceiro o maoismo/liberalismo chinês.

A disputa colonial em Angola foi mais circunscrita aos espaços litorâneos que também eram os mais urbanizados. O MPLA consolidou suas tropas ao norte e iniciou as batalhas contra as demais forças independentistas, o FNLA e a UNITA, que se organizavam mais ao Sul e no interior do país, cuja geografia era mais rural do que urbano. A característica dessa guerra foi tanto entre colonizador e colonizado como entre colonizado e colonizado. Portanto, pode-se dizer que, enquanto havia uma guerra de libertação, também havia uma guerra civil por causa da disputa ideológica dos grupos para um pós-colonialismo.


Entre os símbolos ideológicos originários da luta de traços soviéticos (a bandeira do país contém uma engrenagem e uma foice) e ausência de pacificidade, os angolanos alcançaram a independência de seu país. No entanto, com a derrota de Portugal, os problemas ganharam maior evidência, adentrando numa Guerra mais internacionalizada até a Queda do Muro de Berlim (1989). Neste período, os movimentos se institucionalizaram como partidos políticos, com composições étnicas homogêneas, geograficamente bem definidas, porém historicamente inimigas. Isso fez com que a Guerra Civil se estendesse até o início do século XX, também por causa da mazela socioeconômica e da complexidade cultural, deixadas pelo imperialismo europeu. A tão sonhada paz se afastava ainda mais de seus cidadãos livres, haja vista que depois do fim do bloco socialista, os confrontos armados recomeçaram.

Algumas reflexões

Sob a mesma administração colonial, estas duas ex-colônias portuguesas tiveram experiências diferentes quanto a sua libertação. Em matéria ideológica, Angola teve mais movimentos se insurgindo, pois as cisões aconteceram antes mesmo do início da guerra de libertação. Já Moçambique reuniu todas as suas linhas de pensamento em um único movimento, apenas existindo dissidência depois da libertação. As ex-colônias têm em comum o ano que terminou o imperialismo lusitano, 1975, e a forte influência soviética nas batalhas pós-libertação, o que as levou a ter também bastante dependência econômica. O fim da superpotência socialista levou estes dois países à derrocada política, mas, de maneiras diferentes, cada nação buscou se reerguer.

Nesses dois exemplos, as ameaças se tornaram confrontos físicos que mataram de formas terríveis. Se as bravatas foram a maneira de fazer política internacional por parte das potências do hemisfério norte de 1945 a 1991, as armas foram o jeito de fazer política doméstica por parte de vários países no hemisfério sul, que sofreram influência direta das questões internacionais. A frieza da guerra na Europa não representou os povos e as nações no resto do mundo no mesmo período, pois, parafraseando Sartre, quando os ricos da Europa brigaram, os mortos foram os pobres da África.

Trazendo para a atualidade, o que podemos refletir quanto a isso? Bem, num primeiro momento, a historiografia europeia tende a simplificar os recortes, as vivências e os conceitos da maneira como eles se organizam socialmente. Ela tende a padronizar experiências e universalizar particularidades. A Guerra na Ucrânia é um exemplo disso. Por que outras guerras fora da Europa não provocam comoção e mobilização internacionais? Por que a lógica da dominação é a guerra é local/civil na África? Na Europa, a guerra é qualificada como pré-mundial/mundial.

Num segundo momento, a resposta pode ser a seletividade da chamada comunidade internacional em focar mais sobre países ricos do que países pobres. Tal resposta é oriunda do racismo dos países do hemisfério norte sobre as populações e nações no hemisfério sul. Uma segregação mundial que há muito que se reparar, lutando contra qualquer forma de dominação imperial.


 

Referências

CABAÇO, José Luís. Moçambique: Identidade, Colonialismo e Libertação. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

PARADA, Maurício; MEIHY, Murilo Sebe Bom; MATTOS, Pablo de Oliveira de. História da África Contemporânea. Rio de Janeiro: Ed. PUC RIO: Pallas, 2013.

SARTRE, Jean-Paul. O Diabo e o bom Deus. São Paulo: Círculo do Livro, 1974.

SILVA, Alberto da Costa e. A África explicada aos meus filhos. 2º ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

VISENTINI, Paulo Fagundes. As Revoluções Africanas. São Paulo: Editora UNESP, 2012.

WHEELER, Douglas; PELISSIER, René. História de Angola. 6º ed. Lisboa: Tinta de China, 2016.



Créditos da imagem destacada: Soldados portugueses nas matas do Rio Onzo equipados com o fuzil AR-10. Autor: Joaquim Coelho. Wikimedia Commons.


MENDONÇA, Anderson Guimarães. Guerra fria na Europa, “Guerra quente” na África: algumas reflexões. História da Ditadura, 27 jul. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/guerrafrianaeuropaguerraquentenaafricaimocambiqueeangola. Acesso em: [Inserir data]


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