• Michele Pires Lima

Histórias Transamazônidas

Me chamo Nichole Oliveira e sou uma mulher transexual negra. Nasci no dia 27 de dezembro de 1971. Eu tive a sorte de ter nascido no hospital, porque normalmente o parto era em casa. Dos meus outros irmãos, três nasceram em hospital e três em casa. Eu nasci em hospital. Sou a mais velha.


Até os meus nove anos, moramos na Cachoeirinha: na época, era um bairro de ruas largas. Os terrenos eram imensos: começavam numa rua e terminavam na outra. Na nossa infância, a gente não ia pra rua com um terreno imenso desse. O nosso terreno tinha setenta metros, então normalmente a gente brincava em casa mesmo. Tinha outras crianças que vinham lá pra frente do nosso terreno, dificilmente a gente ia pro terreno de outras casas. A gente ia pra pegar frutas que não tinha em casa: só assim a gente acabava indo pro terreno do vizinho – essas coisas de infância.


Eu me lembro de algumas histórias, por exemplo, de violência. Nessa época já tinha isso de pegar ladrão, de pegar bandido e bater, matar batendo, espancando, não é? Eu me lembro de ter ouvido falar de algumas histórias e de ter visto algumas coisas acontecerem nessa época. Eu ouvi uma história de estupro de uma vizinha nossa que estudava à noite. Só que como eu era muito criança – com, tipo, seis anos – eu não entendi muito bem. Na época se falava curra: “olha, fulana pegou uma curra”. Isso era vizinhança pequena, cidade pequena, bairro pequeno, então essa mulher era falada até o próximo estupro. Eu não entendia muito bem o que era, hoje eu sei que era um estupro: ela foi currada, como se falava na época. E aquilo me chamou muita atenção apesar de eu não entender direito, aquilo me chamou atenção. Hoje eu já vejo isso que era um estupro e como era tratado o estupro na época. Então eu já tenho uma visão melhor.


Minha relação com meus pais e irmãos era mais ou menos legal, porque nessa época eu já sabia que tinha alguma coisa de errado. Na verdade, antes dos seis anos pra mim eu era uma menina: eu era uma menina normal! Então eu não parava muito pra pensar, porque eu era uma menina e pronto! Na minha cabeça eu era uma menina e pronto! Aí eu achava que eu ia crescer e ia ficar igual à minha mãe. Eu ia sofrer mudanças. Como criança, eu sabia que eu era criança e, por isso, eu era diferente, mas, quando eu crescesse, ia me transformar na figura da minha mãe.


Eu comecei a perceber que tinha alguma coisa de errado comigo quando eu comecei a ver os meninos pelados – por exemplo, os meus irmãos, o meu pai... Quando eu vi a genitália do meu pai eu fiquei horrorizada, eu disse: “gente!”. Aí começaram a aparecer os problemas em relação ao gênero, né? Em relação à disforia de gênero. Eu vi que eu não era aquilo que eu achava que era. Aí eu procurava… Não entendia… Eu era uma criança, não é? Eu não entendia o que estava acontecendo. Num primeiro momento eu achava que eu era doente, que tinha uma doença. Inclusive eu cheguei a tomar remédio escondido. Tipo assim, todo remédio que eu via na minha frente eu tomava e dizia: “não, acho que se eu tomar esse remédio, isso vai fazer a transformação que eu quero”. Qualquer um que tivesse lá na prateleira: qualquer coisa, qualquer tipo de remédio.


Isso só foi piorando quando eu fui pra escola. Quando diziam: “a fila dos meninos e a fila das meninas…” Aí: “puts grila, a minha farda era azul, minha farda não era rosa”. Daí a complicação começou. E eu não sabia falar, eu não sabia me expressar.


O meu pai sempre foi violento e a minha mãe sempre foi submissa, então eu tentei demonstrar que tinha alguma coisa de errado comigo: “poxa vida, ninguém tá percebendo que tem alguma coisa de errado comigo?” E, ao mesmo tempo, eu não conseguia falar. Depois que eu vi que o negócio era bem mais complicado: na infância mesmo, na fase escolar, eu vi que era bem mais complicado. Então eu me recolhi e guardei aquilo pra mim.


Eu lembro de uma vizinha nossa que uma vez ficou nua na minha frente. Eu já sabia que não era menina, já sabia que eu não ia me transformar na minha mãe: eu, na verdade, ia me transformar no meu pai. Tive a conclusão exata quando eu vi uma vizinha minha nua – uma vizinha danadinha, né? Ela me chamou e disse: “olha o que tá acontecendo comigo, tá nascendo pelo no meu pipiu”. Aí eu associei automaticamente: “nossa, o dela é igual o da mamãe! Só que o da mamãe tem pelo e o dela tá fazendo transformação”. Eu tive certeza, aí, que eu não ia ser a minha mãe, que eu ia ser o meu pai.


Eu demonstrava trejeitos, sim, e minha família ignorava completamente. Alguns anos depois, quando eu já estava maior – nove anos de idade –, o meu pai já percebia essa diferença. Ele brigava muito comigo por causa disso, me ameaçava muito. Antes de nove anos, ele já me disse algumas coisas bem fortes. Eu lembro que uma vez ele disse que se eu fosse perobo – que era como se chamava o homossexual na época... Eu nem sabia o que era homossexual, bissexual, transexual, essas coisas: eu não sabia absolutamente nada disso. Mas ele dizia que se eu me tornasse um perobo, ele ia cortar minha cabeça e pendurar no poste mais alto da rua. Então o carinho paterno que eu tive foi nessa escala, foi nesse grau.


Eu não entendia nada, eu não sabia de nada e só me reprimia, só me reprimia. Na escola também todo mundo percebeu a diferença que eu tinha e algumas coisas também aconteciam, mesmo eu usando roupa de menino. As pessoas paravam minha mãe na rua e perguntavam se eu era menino ou menina. Eu tinha essa ambiguidade. Minha mãe ficava furiosa! Ela dizia: “qualquer dia desses eu vou arriar tua calça no meio da rua pra todo mundo ver a tua piroca”. A gente saía pra fazer compras, às vezes a gente comprava em loja de roupa, e eu já fui muito abordada, outras mães chegavam: “nossa, a minha filha é do tamanho da sua filha”, aí colocava o vestidinho pra ver se dava em mim, porque se desse em mim automaticamente dava na filha dela. Nossa, só faltava a mamãe ter um infarto! Eu dizia: “Olha, ela percebeu! Ela notou que tem alguma coisa!” Acho que a minha mãe já sabia também, só que ela empurrava com a barriga – ela também não entendia, não é?


Uma vez minha mãe contou como foi que teve contato, quando ela viu a primeira vez homossexuais e travestis. Ela não sabia o que eram travestis: tudo pra ela é gay, sabe? É tudo um bolo só, não tem diferença. Minha mãe dizia que, de onde ela veio – no caso, do interior –, homem era homem, mulher era mulher. Então pra ela era muito difícil entender um gay. Eu não consegui desconstruir isso, não consegui tirar esse preconceito dela, não consegui. Fiz todo um trabalho, mas não adianta. Ela tem síndrome de Gabriela, sabe? Ela não muda, ela não quer mudar, ela não vai mudar.


Quando chegou a adolescência, começou a violência dos meus irmãos. Antes não tinha: a gente vivia meio que normal, a gente brincava. Na verdade, tinha aquela coisa de criança – a criança mesmo não se importa com isso. A criança não tem preconceito, machismo, racismo. Ou seja, toda aquela parte humana ruim são os adultos que colocam na criança. A criança não nasce com isso: a criança é ensinada a ser assim, educada a ser assim de maneira preconceituosa, incorreta, essas coisas. Então com meus irmãos, a gente brincava normal. Às vezes eu queria ser a menina da história e eles nem ligavam pra isso.


Começou quando eu já cresci um pouco mais e entrei na pré-adolescência: aí começou a violência dos meus irmãos. A violência física, a violência psicológica, a violência verbal: tudo começou nessa fase da adolescência. Eles me tratavam como se tratava na época mesmo: “viadinho”. Diziam que eu não era da família. Na verdade, eles reproduziam aquilo que eles viam no ambiente: na escola, com os colegas de rua e em casa também. Eu era aquela coisa esquisita, a vergonha da família. As minhas irmãs tinham vergonha de dizer que eu era irmã delas.


Eu estudei do jardim à 4ª série no Getúlio Vargas. Da 5ª à 7ª série no Rui Araújo. Aí foi a época que nos mudamos pra zona Leste, onde eu fiz o 8º ano. Nossa, era difícil. Era muito difícil! Eu não conseguia me entrosar de jeito nenhum. Era extremamente introvertida, me recolhi numa concha. Eu já fui, inclusive, chamada em conselho de classe por causa disso: queriam saber por que eu não participava de modo algum na sala de aula.


Eu tinha muita dificuldade pra ler: eu era gaga – eu ainda sou gaga. Eu tive que aprender a trabalhar essa minha gaguice – ou gagueira –, mas já na fase adulta, porque até então eu não conseguia ler, sabe? Naquela parte que a professora de português separa um texto ou um parágrafo pra gente ler, quando chegava na minha vez simplesmente não saía. Eu tropeçava na primeira letra e não conseguia sair dali. Era muito difícil. Tinha professora que insistia: “não, continue, você vai ler o parágrafo todinho!” Era muito difícil porque eu gaguejava muito. Trabalho de equipe era horrível: eu não conseguia. Na maioria das vezes era a professora ou o professor que escolhia as equipes, porque eu mesma ser inserida numa equipe era muito difícil. Eu mesma pedir pra participar de uma equipe, combinar uma equipe, isso era zero, impossível. Eu não fazia isso: “era totalmente apática”, foi o que disseram no conselho de classe. E eles queriam saber o que poderiam fazer pra mudar essa situação.


Tudo era por causa da questão de gênero, tudo era por causa da transexualidade, porque eu não conseguia trabalhar isso. A minha cabeça já estava confusa desde a infância e, conforme o tempo foi passando, só foi piorando porque eu comecei a ter características masculinas de uma pessoa adolescente, que, no caso, seriam pelos, desenvolvimento do órgão genital, não é?


Nessa época da adolescência eu era religiosa: eu acreditava no Deus superior. Eu sentava no vaso sanitário, colocava minha genitália entre as pernas, rezava um Pai Nosso, uma Ave Maria e pedia pra Deus, pra Jesus, pra que, quando eu me levantasse, aquele órgão sexual caísse no vaso sanitário. Então eu daria descarga e aquilo ali ia embora e eu me livrava daquele problema. Nossa, eu fiz muito isso, muito, muito, muito, muito, muito. Eu achava que a minha fé ia ajudar a resolver o meu problema. Não rolou. Depois eu vi que não era por aí, não é? Cresci mais um pouquinho e, lá pelos dezoito anos, lendo um livro, descobri o que era transexual.


Uma vizinha me emprestou um livro da Marta Suplicy falando sobre sexo. Lá vinha explicando, didaticamente, o que na época era homossexualismo, bissexualismo, lesbianismo e transexualismo. Quando eu li transexualismo, que eu vi que tinha um tratamento, uma cirurgia. E aí “plim!”: eu descobri por que que eu não dava certo. O preconceito só aumentou porque eu não era aceita quando descobri o que eu realmente era, não é? Quando eu descobri realmente sobre a minha transexualidade, foi que piorou a rejeição dos gays, das lésbicas, das travestis. Tipo assim: isso era uma coisa doida, eu era louca! Transexuais eram pessoas loucas! Transexuais eram pessoas castradas, sabe? Transexuais eram plantas, eram pessoas que não tinham sexualidade nenhuma! Não tinham sexo. E se não tinham sexo, não tinham sexualidade. Se não tinha órgão sexual, não tinha sexualidade. Então a cirurgia…


Eu quero terminar aqui. Bora parar?

Inicio esta coluna alertando aos/às leitores/as que a travesti colunista, aqui, não anda só, mas muito bem acompanhada pela comunidade trans na qual está inserida. Evidenciar as histórias transgêneras do Amazonas implica no reforço da interseccionalidade – instrumento analítico e metodológico formulado pelas feministas negras, entre tantas, cito Kimberlé Crenshaw, Patricia Hill Collins, Karla Akotirene, bell hooks e Sueli Carneiro –, implica na visibilidade de sujeitos e sujeitas trans, negras, pobres, localizadas na periferia geopolítica do país – mais especificamente, na região Norte do Brasil.


Considerando o poder de tal ferramenta analítica feminista, pudemos conhecer a história de Nichole Oliveira: mulher transexual negra manauense, que completará 50 anos de idade em 2021; é trabalhadora do campo da estética e residente no bairro São José, zona Leste de Manaus, considerada uma região periférica da cidade. Além disso, essa mulher é transativista dos Direitos Humanos e, desde o final de 2017, ocupa o cargo de Conselheira Fiscal da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Amazonas (ASSOTRAM), além de representar esta organização social em diversos espaços de debate público.


Apresentei parte da rica e importante história de Nichole Oliveira com o intuito de instigar a reflexão dos/das leitores/as sobre os privilégios que possuem, mas que não percebem devido à naturalização da cisnormatividade e todas as suas ramificações entranhadas nas estruturais sociais.


Eu e Nichole Oliveira esperamos encontrá-los/las, novamente, em breve!


Fonte:

Entrevista com Nichole Oliveira [Concedida a Michele Pires Lima, Manaus (AM)], 24 de abril de 2019.


Bibliografia:

AKOTORINE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Polén, 2019.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o Feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Portal Geledés, São Paulo, 06/03/2011.

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.

CRENSHAW, Kimberle. Intersccionalidade na Discriminação de Raça e Gênero. In: VV. AA. Cruzamento: raça e gênero. Brasília: UNIFEM, 2004

HOOKS, bell. E eu não sou uma mulher?: Mulheres negras e feminismo. Tradução: Bhuvi Libanio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.


96 visualizações