• Renan Freira

O Carnaval da avenida é político?

Após pouco mais de dois anos, os desfiles das escolas de samba voltaram a ser realizados no Rio de Janeiro e também em outros estados. Retornaram às ruas componentes, fantasias, instrumentos e carros alegóricos numa mistura de expectativa e realização. Estes desfiles trazem consigo um tema, uma mensagem e uma história responsável por alinhar esteticamente a apresentação: o enredo. Nos últimos carnavais, este quesito (um dos componentes de avaliação da disputa que justifica a execução dos desfiles) vem ganhando especial destaque pela ligação cada vez mais evidente com questões sociais e políticas do país. Visto que as escolas de samba estão inseridas num contexto festivo, a pergunta que intitula este texto surge com uma reflexão sobre o paralelo que se estabelece entre a expressão cultural e o contexto social em que está inserida.

Durante o século XX nasceram os primeiros arranjos do que seriam os blocos carnavalescos e as escolas de samba do Rio de Janeiro. Sob uma influência europeia, principalmente das comemorações italianas, a festa fazia parte de uma tentativa de se espelhar em sentidos ocidentais de modernidade. Distantes demais da realidade carioca, estes modelos foram dando espaço a traços mais característicos da cultura popular brasileira, como os ritmos musicais afro-latinos: a salsa, o merengue e o samba. Este último traz para a festa, inevitável e permanentemente, o negro, tanto como indivíduo quanto coletivo. Os desfiles das escolas de samba nascem dessa miscelânea e crescem criando a possibilidade de expressão em forma de espetáculo. São milhares de pessoas se apresentando numa marcha coletiva, cantando e dançando musicalidades ancestrais no espaço público urbano. São corpos, símbolos e nuances em festa para quem quiser ver.


Fevereiro é o epicentro de todo o ciclo do Carnaval para as escolas de samba. Toda a vida nos barracões, ruas, bares e quadras gira em torno desse mês. O Carnaval não tem uma data fixa e nada faz mais sentido, pois é uma festa popular de movimento. Apesar de, às vezes, a festa se abrigar nos meses vizinhos, fevereiro é o mês em que a saudade bate mais forte, em que é possível ouvir de forma involuntária os instrumentos da bateria e no qual o lúdico fica mais presente.

O Carnaval é um momento programado de transgressão da lógica de funcionamento da sociedade. É quando as contradições entre o fechado e o aberto, o público e o privado, o controle e a liberdade ficam mais evidentes e são abraçadas. Referência em praticamente todos os trabalhos dedicados ao Carnaval, o antropólogo Roberto DaMatta (1997) coloca a festa como um rito que não possui dono e, justamente por isso, é de todo mundo. Isso a diferencia de, provavelmente, todas as manifestações culturais brasileiras. Não pertencendo a nenhum indivíduo, grupo ou órgão específico, o carnaval não impõe regras e normas tão rígidas a sua realização, criando, assim, um espaço fértil para a manifestação de variados discursos e práticas que em outros períodos não teriam tanta abertura.

Essa manifestação de massa evoca a confusão, a inversão, o avesso, o atípico. Seus dias trazem a mais pura ilusão de ser o que se quiser ser. Também é coletividade em uníssono, é sensação de pertencimento. No meio de tanta efusão, algumas vozes, que, na normalidade, se aquietam, encontram a possibilidade de extravasar a fantasia, fruto de sua realidade. O Carnaval permite quase tudo e, por isso, é sobretudo manifestação política. Os desfiles aqui escolhidos são alguns exemplos que nos possibilitam observar essa característica da folia. Acadêmicos do Salgueiro, 1960: Quilombo dos Palmares O trabalho de Fernando Pamplona, carnavalesco do Salgueiro em muitos desfiles das décadas de 1960 e 1970, marcou não só a história da escola do Morro do Salgueiro como também a trajetória dos desfiles como um todo. O enredo sobre Zumbi dos Palmares inaugurou a abordagem de temáticas negras. Sua linha narrativa colocou em primeiro plano a trajetória do personagem e a luta revolucionária quilombola. Pela primeira vez, a história negra era contada nessa festa de expressão autenticamente negra. Preto cantando sobre preto. Isto é sobre ser prioridade em seu próprio espaço. Em termos de simbologia, esse foi um ponto muito importante em toda a história dos desfiles. E, embora tenha sido um dos momentos mais memoráveis do Carnaval brasileiro, o Salgueiro levou o título junto com outras quatro agremiações num empate acordado a fim de resolver uma confusão com a contagem dos pontos na apuração. No samba entoado pela comunidade, as seguintes palavras podiam ser ouvidas:

(...) No tempo em que o Brasil ainda era

Um simples país colonial,

Pernambuco foi palco da história

Que apresentamos neste carnaval.

Com a invasão dos holandeses

Os escravos fugiram da opressão

E do jugo dos portugueses.

Esses revoltosos

Ansiosos pela liberdade

Nos arraiais dos Palmares

Buscavam a tranquilidade (...)


(Anescar Rodrigues / Noel Rosa de Oliveira)

Essas palavras foram proferidas no desfile por um grupo formado por pessoas marginalizadas, exaltando um herói com características divergentes de outros da mesma época. Num mapeamento dos enredos com temática negra durante a década de 1960, o historiador Guilherme José Motta Faria (2014) identifica a presença de três principais eixos: a escravidão, a importância da negritude na formação cultural brasileira e as figuras heroicas. O desfile do Salgueiro se enquadraria nesta última categoria, centrando-se na posição de liderança em que pessoas pretas estiveram nos movimentos de luta pela garantia de direitos civis. Em sua homenagem a Zumbi e ao Quilombo dos Palmares, a escola propôs realocar a posição do negro para o centro da narrativa histórica, desafiando abordagens hegemônicas que anulavam seu poder de articulação e reação à violência sofrida no período colonial brasileiro. Estação Primeira de Mangueira, 2018: Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco

O Carnaval da Mangueira tem, desde o começo dos anos 2000, um traço popular muito forte. Com a entrada do carnavalesco Leandro Vieira isso se intensificou, alinhando estética visual e narrativa numa aposta que funcionou muito bem para a escola. No ano de 2018, o enredo escolhido foi uma afirmação. Seu título – Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco –evidencia a intenção de posicionar o Carnaval acima de preocupações econômicas. O seu desenvolvimento discursivo faz referência a práticas carnavalescas do século passado, tais como o entrudo e as reuniões de sambistas em bares com o propósito de exaltar a característica mais autêntica da festa: a celebração. A parte final do desfile foi dedicada aos blocos de rua e à democratização do espaço carnavalesco. Naquele ano, a cidade do Rio de Janeiro estava sob o mandato de Marcelo Crivella, que proferiu falas carregadas de preconceito sobre a festa e aplicou cortes nos investimentos públicos para a realização dos desfiles. Todo o desfile da Mangueira surgiu como um confronto direto à política do prefeito.

Detalhe do carro alegórico da Mangueira no desfile de 2018 com a mensagem “Prefeito, pecado é não brincar carnaval!!”. Imagem cedida pelo carnavalesco Leandro Vieira.

Unidos de Vila Isabel, 1988: Kizomba, Festa da Raça No ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil, temas que abordavam questões culturais e sociais ligadas aos negros foram bem presentes na Sapucaí. Entre os desfiles que mais se destacaram no campeonato, o da Vila Isabel, sem sombra de dúvida, se consagrou na memória de quem o testemunhou. Com um desenvolvimento encabeçado por Martinho da Vila, o enredo era uma homenagem a lideranças negras, a manifestações culturais de origem negra e, também, um protesto contra o racismo – tema em evidência na época por conta do regime do apartheid na África do Sul.

No samba, celebrado ainda hoje, ecoa o verso “Essa kizomba é nossa constituição”. Kizomba é uma palavra do kimbundu, uma das línguas faladas em Angola, e significa encontro, confraternização, comemoração, festa (CAVALCANTI, 1999). Um chamado à celebração como forma de resistência. Esta organização é o elemento fundamental da nossa constituição enquanto povo.


Amplificando os significados do enredo, podemos incluir a influência dos debates em torno do processo de redemocratização por que o país passava. Em consonância com as discussões da nova constituição na Assembleia Nacional Constituinte, instalada no ano anterior ao desfile em questão, a Kizomba proposta pela agremiação do Morro dos Macacos exigia igualdade. É uma mensagem tão forte que marca a comunidade que celebra esse desfile até os dias atuais. Se há alguma dúvida do impacto desse desfile na construção da identidade dessa comunidade e na história do Carnaval carioca, basta conferir os depoimentos reunidos no documentário produzido pelo Departamento Cultural da Unidos de Vila Isabel. Acadêmicos do Grande Rio, 2020: Tatalondirá: O canto do caboclo no Quilombo de Caxias O último Carnaval antes da pandemia de Covid-19 trouxe consigo um reencontro de uma escola com sua comunidade. Marcada nos anos anteriores por enredos que primavam questões e temáticas mais irreverentes, a escola de Caxias trouxe para a rua em 2020 a história de João Alves de Torres Filho, mais conhecido como Joãozinho da Gomeia, um pai de santo que lideravao Terreiro da Gomeia, localizado no mesmo bairro da escola. O enredo trazia em seu desenvolvimento acontecimentos da biografia do personagem, suas características mais lembradas e referências à sua religião. Ficaram marcadas na apresentação as duas paixões do personagem: o candomblé e o Carnaval – duas expressões difíceis de separar no Brasil, tão enraizadas na cultura popular ao mesmo tempo em que ainda lutam para existir diante da tendência higienizadora cada vez mais presente na política pública do país.

Detalhe do elemento cenográfico da comissão de frente da Grande Rio no desfile de 2020 com o trecho do samba-enredo: “Respeita meu axé”. Autor: Raphael David | Riotur. Creative Commons.

Cada um desses desfiles renderia um texto exclusivamente dedicado às suas grandes contribuições e seus impactos, não só para aqueles que viram sua passagem pela avenida, mas também para suas comunidades. Colocados lado a lado, eles exemplificam a pluralidade da sua vertente política. Os desfiles das escolas de samba são afastados do sentido mais institucional do que é considerado político, por uma constante desvalorização de sua importância social. Entretanto isso não significa a inexistência de uma característica militante. O que acontece na rua, durante o carnaval, é baseado na articulação de outras políticas não-hegemônicas tão relevantes quanto a que se faz em ambientes como câmaras legislativas, comícios e protestos. Uma função tão importante que estabelece uma relação de complementaridade entre as diferentes formas de se fazer política.

O Carnaval é político quando se propõe a reescrever a história de um povo, quando confronta as ações de uma gestão pública, quando expõe a característica resistente da festa e quando propõe um debate sobre a essencial contribuição afro-brasileira na composição cultural do país. São vozes que gritam tão alto que se tornam impossíveis de ignorar. Os exemplos expostos deixam o argumento mais evidente pela sua vontade de dialogar de forma mais direta com demandas sociais de sua época, mas mesmo se apresentássemos outros desfiles dos mais variados temas, o teor político se manteria. Sambar por si só é um ato revolucionário.

Assim como a produção historiográfica reage ao seu presente falando do passado, os desfiles estão numa constante relação com o que acontece na sociedade em que estão inseridos. É uma produção artística e intelectual em constante movimento de ação e reação. Dialoga, aceita, julga, rejeita, esquece e relembra. A potência comunicadora das escolas está na ressignificação e na massificação de temas, na hereditariedade das suas características, na afirmação e atualização da tradição, porque, ao mesmo tempo em que o Carnaval é pautado por pilares definitivos, a transgressão é um dos seus combustíveis.


 

Crédito da imagem destacada: Carro alegórico da Mocidade de Padre Miguel no desfile de 2020. Autor: Fernando Grilli/Riotur. Creative Commons.


Referências

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O rito e o tempo: ensaios sobre o carnaval. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

CHAVES, Beatriz; MARTINS, João Carlos. Grande Rio 2020: De volta às origens, escola faz seu melhor desfile dos últimos anos e sonha com título inédito. SRZD, 2020.

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FARIA, Guilherme José Motta. O G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro e as representações do negro nos desfiles das escolas de samba nos anos 1960. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, 2014.

MAAR, Wolfgang Leo. O que é política? Brasiliense: São Paulo, 2006.

MELO, Gustavo. Salgueiro 1960: “Quilombo dos Palmares”, o primeiro capítulo da revolução. EXTRA, 2013.

REZENDE, Rafael Otávio Dias. O negro nas narrativas das escolas de samba cariocas: um estudo de Kizomba (1988), Orfeu (1998), Candaces (2007) e Angola (2012). Dissertação (Mestrado em Comunicação). Universidade Federal de Juiz de Fora, 2017.



Como citar este artigo:

GUIMARÃES, Renan Freira. O Carnaval da avenida é político? História da Ditadura, 24 mai. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/ocarnavaldaavenidaepol%C3%ADtico . Acesso em: [inserir data].


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