Tecnologia, neotecnicismo e precarização da educação pública durante a pandemia de covid19 no Brasil
- Graciella Fabricio da Silva

- 4 de nov. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de abr. de 2022
A pandemia de covid-19 agravou a precarização das escolas públicas. Uma das primeiras formas de se identificar esse processo é a observação das condições em que foi implementado o ensino remoto. De uma hora para outra, docentes e estudantes se viram obrigados a trabalhar e estudar remotamente. A imprensa hegemônica noticiou essa mudança brusca no modo de funcionamento da educação básica como sinônimo de superação diante do desafio imposto pela nova realidade. Entretanto, é necessário olhar mais atentamente para a questão do uso das tecnologias na educação básica. Para explicitar esse processo, tomarei por base a rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, onde leciono.
Há tempos, pesquisadores, o movimento estudantil secundarista e o SEPE-RJ apontam a histórica precarização da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Essa precarização se manifesta na baixa remuneração dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação, no déficit de inúmeros profissionais (inclusive professores de diversas disciplinas) e na falta de recursos financeiros e didáticos suficientes para promover uma educação de qualidade. A raiz desse processo de precarização está nas políticas econômicas neoliberais implementadas sob diferentes formas no Brasil a partir dos anos 1990. Tais políticas se caracterizam pela transferência de recursos públicos para o setor privado por meio de ações como privatizações, parcerias público-privadas e terceirizações (ações essas que são acompanhadas de cortes orçamentários).
Os dados do Censo Escolar do ano de 2020 ajudam a dimensionar a realidade das escolas públicas. A fim de equacionar melhor a realidade, citarei alguns dados referentes às redes municipal, estadual e privada. Apenas 64,7% das unidades escolares da rede pública municipal possuem acesso à internet. Na rede particular, este percentual é de 96,8%. Apenas 33,7% das escolas municipais disponibilizam internet para o aprendizado dos alunos; esse recurso está disponível em 71,5% das escolas estaduais. Nas escolas municipais, 6% dos alunos possuem tablets; na rede estadual, o equipamento é disponibilizado para 12% dos alunos, enquanto 25% dos alunos da rede privada o têm. As diferenças possuem dimensões regionais, com as regiões Sul e Centro-Oeste possuindo os melhores índices de acesso à internet nas escolas (96,9% e 96,6%, respectivamente), enquanto a região Norte possui o menor percentual, com 43,2% das escolas com acesso a esse recurso.

Segundo dados divulgados em setembro de 2020 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cerca de 6 milhões de estudantes brasileiros não possuíam acesso à internet em casa. Deste total, 5,8 milhões pertenciam à rede pública.
A intensificação do uso da tecnologia na educação durante a pandemia ocorreu sem que, em contrapartida, ocorresse a disponibilização de recursos para professores e estudantes a fim de viabilizar uma certa equidade de condições de ensino e aprendizagem. Os sindicatos de professores e o movimento estudantil denunciaram essa situação e houve algumas (tardias) iniciativas parlamentares para viabilizar uma estrutura básica, com o objetivo de que as escolas pudessem oferecer condições mais apropriadas para o ensino remoto. Em 28 de dezembro de 2020, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3477/2020, que previa a ajuda da União a estados e municípios com 3,5 milhões de reais para garantir acesso à internet a alunos e professores das escolas públicas. A expectativa era de que a medida beneficiaria cerca de 18 milhões de estudantes e 1,5 milhão de docentes durante a pandemia.
Seriam contemplados os estudantes inscritos no Cadastro Único Para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) e aqueles matriculados em escolas indígenas e quilombolas. Quanto aos docentes, seriam beneficiados os de todos os níveis de ensino. Os recursos viriam principalmente do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). No entanto, a proposta foi integralmente vetada pelo presidente Jair Bolsonaro, que alegou que a medida impedia o governo federal de cumprir as metas fiscais.
Além disso, durante a pandemia, foi aprofundada a atuação dos setores empresariais nas redes públicas. Ela se materializou por meio de plataformas digitais, como Google Classroom, em detrimento de sólidas plataformas públicas já desenvolvidas e utilizadas em cursos de educação à distância (EaD) das universidades públicas, como a Plataforma Moodle, do Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (CECIERJ), que reúne as universidades públicas estaduais e federais localizadas no estado do Rio de Janeiro. Ainda no mesmo estado, ocorre também a utilização de um aplicativo desenvolvido pela IP.TV, o Applique-se. Segundo reportagem do The Intercept Brasil, a empresa responsável pelo aplicativo utilizado pelos professores e estudantes da rede estadual fluminense atuou na campanha de Jair Bolsonaro à presidência, em 2018, e possui acesso a dados pessoais de milhares de estudantes e professores. Leonardo Ribeiro da Cruz e Jamila Rodrigues Venturini lembram que os acordos entre governos e grandes empresas de tecnologia “são reflexo de um longo processo de desinvestimento na educação pública que – principalmente no âmbito do ensino superior – impacta diretamente na capacidade de gestão das suas áreas de infraestrutura de tecnologias de informação (TI)”. Os pesquisadores também alertam para o fato de que essas empresas não oferecem segurança sobre o uso de dados de professores e estudantes e, além disso, fazem
coleta massiva de metadados sobre as práticas e desempenho dos estudantes, capaz de criar diagnósticos precisos não só sobre seus comportamentos, como sobre a educação pública por meio de um vigilantismo que facilita o ranqueamento e segregação social com impactos diretos no aprofundamento das desigualdades sociais.Como aponta Luiz Carlos Freitas, o avanço do uso das tecnologias digitais na educação acompanha um “neotecnicismo educacional”, que se assemelha ao tecnicismo dos anos 1970, no sentido de que professores e estudantes ficam subordinados ao processo educacional. Segundo Freitas, essa nova onda tecnicista implica um maior controle de professores e estudantes e se combina com as demandas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aprovada no governo Temer.
Tão preocupante quanto o avanço de empresas privadas nas escolas públicas por meio de aplicativos e plataformas EaD é a ampliação do setor privado na definição das políticas educacionais durante o período pandêmico. Por meio de carreatas e conteúdos disseminados pela imprensa, organizações privadas deram o tom sobre diversos aspectos da educação, inclusive no que se refere à reabertura das escolas públicas e particulares antes mesmo de haver condições sanitárias seguras para tanto, colocando em risco a vida de estudantes, profissionais e seus familiares. Desta forma, ficamos cada vez mais distantes de uma educação democrática.
Para compreender a dimensão da precarização da educação pública no estado do Rio de Janeiro, ver: NAJJAR, Jorge. A disputa pela qualidade da escola: uma análise do programa Nova Escola do Estado do Rio de Janeiro. Niterói: EdUFF, 2015. Ver também: SILVA, Amanda Moreira da. Dimensões da precarização do trabalho docente no século XXI: o precariado professoral e o professorado estável-formal sob a lógica privatista empresarial nas redes públicas brasileiras. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2018.
Referências
CRUZ, Leonardo Ribeiro da; VENTURINI, Jamila Rodrigues. “Neoliberalismo e crise: o avanço silencioso do capitalismo de vigilância na educação brasileira durante a pandemia da Covid-19”. Revista Brasileira de Informática na Educação – RBIE, v. 28, pp. 1060-1085, 2020.
NAJJAR, Jorge. A disputa pela qualidade da escola: uma análise do programa Nova Escola do Estado do Rio de Janeiro. Niterói: EdUFF, 2015.
SILVA, Amanda Moreira da. Dimensões da precarização do trabalho docente no século XXI: o precariado professoral e o professorado estável-formal sob a lógica privatista empresarial nas redes públicas brasileiras. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2018



La pandemia evidenció cómo la tecnología puede ser tanto una aliada como un obstáculo en contextos de desigualdad. La falta de acceso y la precarización afectaron profundamente a la educación pública. En paralelo, sectores productivos también enfrentaron retos, impulsando mejoras en equipos industriales para adaptarse a nuevas demandas. Ambos escenarios muestran que invertir en tecnología accesible y robusta es clave para el desarrollo sostenible.
Ótima análise! O comportamento do Estado do Rio de Janeiro recentemente, sobretudo no tocante ao chamado Auxílio Tecnológico (que chegou mais atrasado que nunca), reforça ainda mais a tendência ao neotecnicismo e a precarização. Uma boa pedida para a coluna seria analisar a questão do Fundeb nos últimos anos.