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  • Foto do escritorLúcio Geller Junior

Um ano da guerra na Ucrânia e os fantasmas do século XX

Na última sexta-feira, dia 22 de fevereiro, a guerra na Ucrânia completou um ano. A eclosão do conflito foi tão mais surpreendente porque, até a véspera da invasão, era difícil prever qual seria o destino de uma crise que não começou em 2022, nem no final de 2021, quando começaram os primeiros exercícios das tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Já na virada de 2013 para 2014, os dois países entravam em rota de colisão, na medida em que Vladimir Putin pressionava o homólogo ucraniano, Viktor Ianukovytch, a abandonar o acordo de livre comércio com a União Europeia (UE).


Daquele momento em diante, a Ucrânia foi sacudida por uma série de eventos. Desde a jornada de protestos conhecida como Euromaidan até a queda de Ianukovytch, passando pela reação de Putin, que anexou a Crimeia e passou a apoiar movimentos separatistas russos na Bacia do Donets – onde se localizam as hoje autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk. Surgiu assim um longo conflito entre os grupos apoiados pelo governo russo e as forças de segurança da Ucrânia na região, que levou ao surgimento de batalhões de voluntários ucranianos, com a assustadora presença de agremiações de extrema direita, como o Batalhão de Azov e o Setor Direito.


Uma linha de seis obuseiros 2S3 Akatsiya de 152 mm com suas tripulações pararam na beira de uma estrada. Os veículos têm marcações brancas de reconhecimento e bandeiras ucranianas. Data: 4 mar. 2015. Fonte: OSCE Special Monitoring Mission to Ukraine. Wikimedia Commons.

O quadro histórico acima não está incorreto, mas traz alguns dilemas para qualquer observador, principalmente quando procuramos explicar a decisão de Putin de invadir a Ucrânia. Para vários estudiosos, como o historiador Ronald Suny (2022), o detonador da guerra foi justamente o declínio da influência russa sobre a Ucrânia em um cenário de aproximação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de suas fronteiras, através da adesão dos mesmos países do extinto Pacto de Varsóvia. Contudo, a ideia de que essa “expansão” não deixou outra alternativa a Putin, senão a guerra, corre sempre o risco de legitimar sua decisão e, no fundo, torná-la inexorável.


Foi exatamente isso que procurei discutir em um texto, publicado no site História da Ditadura semanas após o início da invasão. Afinal, uma das justificativas de Putin era a de que a proximidade da OTAN representava uma ameaça para a segurança nacional da Rússia. O problema, ao meu ver, era não só reiterar seu ponto de vista, mas ir contra o que qualquer intérprete da história pode oferecer para compreender o presente. Isto é, se há algo de útil na historiografia, é mostrar que nenhum acontecimento é natural, imanente ou essencial. Tudo é histórico e, portanto, pode ser diferente.


Além disso, achava curioso como a redução do conflito aos meros interesses das potências internacionais transformava o palco da guerra em um simples tabuleiro de xadrez, sem vontade própria, em que forças muito maiores e mais importantes se enfrentavam. A pergunta que eu me fazia era: como compreender a “expansão” sem levar em conta a história dos países que, como a Ucrânia, buscam se integrar a entidades de dissuasão da influência russa no Leste Europeu? E por quê? Para respondê-la, achei que seria importante abordar, em outro artigo, as visões de mundo de Putin, com vistas a oferecer uma imagem mais nuançada do que a do anedótico “inimigo da OTAN”.


Resultados do bombardeio russo de Kiev na manhã de 26 de junho de 2022. Fonte: State Emergency Service of Ukraine. Wikimedia Commons.

Nela, busquei discorrer também sobre o segundo ponto presente na justificativa de Putin. Isto é, de que a ofensiva sobre a Ucrânia seria não só um ataque preventivo, mas uma operação para “desnazificar” o país, em vista dos elementos extremistas na Bacia do Donets. Seus mísseis, porém, rapidamente começaram a atingir alvos bem mais distantes, como a capital Kiev. A leniência dos governos que sucederam Ianukovytch com a presença da extrema direita nos conflitos civis e nos espaços políticos, foi então o argumento de Putin para lançar um ataque em várias frentes de batalha.


Sem dúvida, em um momento de ascensão de grupos que assumem discursos abertamente reacionários, o caso da Ucrânia chama a atenção. Contudo, qualquer um que tenha assistido à emergência do bolsonarismo no Brasil sabe que não se trata de uma questão isolada, ou própria de um país do distante Leste Europeu. E sim de um problema global que atinge, inclusive, a Rússia. É preciso lembrar que os governos de Putin não foram um terreno menos fértil para o surgimento de grupos e divulgadores de ideias extremistas, como Aleksandr Dugin; ou de conflitos ligados ao pertencimento nacional, com marcas de xenofobia e racismo, a exemplo das duas guerras da Chechênia.


Ainda assim, devo admitir que a posição de Putin parece exercer um certo fascínio entre aqueles que, com toda a razão, não depositam nenhuma esperança no militarismo humanitário da OTAN e enxergam com preocupação a corrosão democrática que o avanço da extrema direita representa. Isso porque Putin não está falando de conceitos e interpretações através das quais os historiadores atribuem sentido ao mundo ao longo do tempo. Ele está falando dos fantasmas de um século em que seu país, a despeito de qualquer especificidade histórica, contribuiu para livrar o mundo dos campos de morte do nazismo. Trata-se da lembrança do triunfo da “Grande Guerra Patriótica”, como ficou conhecida na Rússia a Segunda Guerra Mundial. É lá que repousa sua pretensa legitimidade, e a busca de uma aceitação e uma absolvição de suas contradições.


Durante o desfile militar para marcar o 77º aniversário da vitória da Rússia sobre o Terceiro Reich, em 9 de maio de 2021, Putin (2021, p. 2) se dirigiu ao público presente na Praça Vermelha e disse: “descendemos da geração dos vencedores, uma geração da qual nos orgulhamos e temos grande honra”. No ano seguinte, já com a invasão em curso, Putin (2022, p. 1) prestou saudações aos veteranos ucranianos da “Grande Guerra Patriótica” e afirmou: “hoje o nazismo está mais uma vez levantando a cabeça e tentando impor sua ordem bárbara e desumana. Nosso dever sagrado é impedir a retaliação dos herdeiros ideológicos daqueles que foram derrotados na Grande Guerra Patriótica”.


Putin, longe de qualquer afeição pelos ideias dos fundadores da União Soviética, invoca a lembrança da rendição alemã não só para justificar a decisão de invadir a Ucrânia, ainda que em cenários muito diferentes, mas para criar um novo laço de pertencimento a uma Rússia pós-soviética. O mesmo, acredito, pode ser dito sobre a Ucrânia. Na procura de um caminho independente, surge a tentativa de se distanciar de uma tutela da Rússia que vem desde muito antes do período soviético. Ao fazer isso, ela certamente precisa enfrentar os fantasmas de Stepan Bandera, e outros antepassados do fascismo ucraniano, que assombram o presente.


O local do acidente de um avião russo abatido sobre o setor privado de Chernihiv (Ucrânia). Data: 5 mar. 2022. Fonte: State Emergency Service of Ukraine. Wikimedia Commons.

Para concluir, embora ache que a ideia de que o século XX foi uma “era dos extremos” padeça de eurocentrismo – afinal, há séculos o mundo colonial experimentava a exploração e a violência racial –, acredito que há nela uma comparação mínima com a situação atual. O que estamos assistindo, desde fevereiro de 2022, não são os fantasmas do começo da “era dos extremos”, ou melhor, do período entre as duas grandes guerras mundiais, como diz Putin. Mas do fim dela, quando o epílogo da Guerra Fria gerou uma explosão de disputas e questionamentos sobre as representações nacionais estabelecidas. Em outras palavras, não são os fantasmas da Saravejo que mergulhou o mundo no caos do início do século passado, mas da Saravejo das guerras de dissolução da Iugoslávia, em que sérvios, croatas e bósnios enfrentaram os traumas da ocupação nazista e os símbolos dos conquistadores otomanos. Tudo isso, aliás, em meio aos bombardeios massivos da OTAN, que atribui a si o direito de apagar um incêndio com mais combustível. Créditos da imagem destacada: Vista de rua na cidade da região de Kiev. A foto foi tirada quando o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, visitou a cidade em 4 de abril de 2022. Fonte: Press Office of the President of Ukraine. Wikimedia Commons.


 

REFERÊNCIAS:


PUTIN, Vladimir. Victory Parade on Red Square. President of Russia, Moscou, 9 mai. 2022.

PUTIN, Vladimir. Greetings to Ukrainian Great Patriotic War veterans. President of Russia, Moscou, 8 mai. 2022.

SUNY, Ronald. Ukraine war follows decades of warnings that NATO expansion into Eastern Europe could provoke Russia. The Conversation. 28 fev. 2022.


Como citar este artigo:

GELLER JUNIOR, Lúcio. Um ano da guerra na Ucrânia e os fantasmas do século XX. História da Ditadura, 25 fev. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/um-ano-da-guerra-na-ucrania-e-os-fantasmas-do-seculo-xx. Acesso em: [inserir data].


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2 Comments


Simone Pinori
Simone Pinori
Apr 02, 2023

Acho que no artigo falta a posição da Cia e dos Estados Unidos na caida de Ianukovitch e na criação do nada do politico Zelensky e do seu governo, como na crise do tratado de Minsk entre Kiev e a Rússia.

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lucio.geller
Apr 16, 2023
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Obrigado pelo comentário. Todo texto sempre ficará devendo alguma coisa, sobretudo quando é preciso tratar de um assunto tão complexo em poucas linhas. Sobre as questões mencionadas, prefiro não ir muito por esse caminho. Ao falar da ingerência dos EUA na Ucrânia, alguém poderia lembrar da ingerência russa na Geórgia. Ao falar do Tratado de Minsk, alguém poderia recordar do Memorando de Budapeste. E assim a discussão não sai do lugar. Afinal, é um conflito intraimperialista entre potências capitalistas. Em todo caso, é sempre importante destacar a ficha criminal dos EUA.

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