• Higor Codarin

Um futuro vedado ainda é um futuro.

“O desespero de Faulkner me parece anterior à sua metafísica: para ele, como para todos nós, o futuro está vedado. Tudo o que vemos, tudo o que vivemos nos incita a dizer: “Isso não pode durar” – e no entanto a mudança não é nem mesmo concebível, a não ser na forma de cataclismo. Vivemos no tempo das revoluções impossíveis, e Faulkner emprega sua arte extraordinária para descrever esse mundo que morre de velhice e nossa asfixia. Aprecio sua arte, mas não acredito em sua metafísica. Um futuro vedado ainda é um futuro.” (Jean-Paul Sartre)

Tomei contato com este trecho, que compõe um ensaio de Sartre sobre O som e a fúria de William Faulkner, pela biografia intelectual de István Mészáros sobre o existencialista francês. Em 1939, às portas da Segunda Guerra Mundial, Sartre escrevera sobre nossa asfixia em um mundo que – dizia ele – morria de velhice. O mundo de Sartre, da primeira metade do século XX, infelizmente, não morreu. Guardadas as devidas e significativas diferenças históricas, aquele mundo – que nos asfixia e nos incita a dizer “isso não pode durar” – parece ter, de certo modo, rejuvenescido.


O futuro parece, efetivamente, fechado. Conforme nos diz o historiador francês François Hartog, vivemos em um “regime de historicidade presentista”. Em contraposição ao regime moderno de historicidade tão bem analisado por Reinhart Koselleck – em que as categorias presente, passado e futuro se articulavam sob a predominância desta última –, percebemos, cotidianamente, um destronamento do futuro pelo presente. O futuro deixou de ser luminoso. A História de H maiúsculo, com a qual Fidel Castro estava em consonância e pela qual tinha a certeza de que seria absolvido, perdeu o poder de apontar o sentido para o qual a humanidade caminha. A abertura para o futuro inclusa no regime moderno de historicidade, parece ter se tornado obsoleta, sobretudo no Brasil. Assim, diante da imperiosa presença do presente, passei a pensar sobre qual a relação de meu ofício com o tempo. Sobretudo, com o futuro. Afinal, o que os historiadores têm a ver com o futuro?


Em uma chave analítica mais imediata de questões que nos levam ao presentismo, e algo diferente das levantadas por Hartog, são várias as inseguranças que desacreditam o futuro dos brasileiros. Cito algumas: na esfera do trabalho, o desmonte da legislação trabalhista e o processo de uberização surgem como obstáculos, em certa medida intransponíveis, a qualquer estabilidade e previsibilidade do amanhã para os trabalhadores; o desmonte da estrutura previdenciária impede o vislumbre de uma aposentadoria digna e tranquila para aqueles que passarão a vida contribuindo com os cofres previdenciários; especificamente para mim, historiador e professor, antiintelectualismo e censuras veladas colocam em xeque, por um lado, a possibilidade futura de pesquisa e, por outro, o livre exercício da docência; por fim, a pandemia ligada ao novo coronavírus, incentivada pelo Governo Federal, colocando na ordem do dia a não existência objetiva deste futuro para muitos de nós.


Propaganda da ditadura militar. Reprodução.

Com o amanhã fechado, o que nos resta? Uma sucessão incessante de “hojes”. O presente como único horizonte possível. Mas eu – como todos nós – quero sonhar com um futuro. Um futuro que não seja um presente indefinido e, mais do que isso, um futuro que não seja este presente.


À primeira vista, essas reflexões parecem fora de lugar. Muito ao contrário de nos engajar na busca de horizontes utópicos, a perspectiva de fechamento do futuro nos leva ao polo oposto. Contudo, refletir sobre meu ofício, parte fundamental de minha inserção no mundo é, também, uma maneira de buscar “superar o curso natural dos acontecimentos” como disse Ernst Bloch ao descrever a utopia em O princípio esperança.


O objetivo dos historiadores é, obviamente, o passado. Como escafandristas, mergulhados em vestígios de outros tempos, buscamos interrogar o passado através do prisma do presente no qual nos encontramos. É por isso que, mesmo voltados para o passado, o ofício do historiador e o fazer histórico se renovam constantemente. O passado não é estático, inerte, mas sim um quebra-cabeças em constante recomposição, sempre à mercê de novas evidências e novas perguntas. Não quero, com isso, colaborar com os argumentos pós-modernos que apontam, diante das renovações historiográficas constantes, a impossibilidade de conhecimento sobre o passado e a relação sem mediações entre história e literatura que, apesar de convergirem em certos pontos, divergem em aspectos fundamentais. Em suma, o passado é, sim, possível de ser apreendido pelos historiadores. Contudo, a pergunta permanece: e o futuro?


Desde minha entrada na universidade, pairava – de modo difuso e nem sempre abertamente dito – uma caracterização pejorativa com relação à(s) historiografia(s) comprometidas com uma visão de futuro. Em nosso ofício, diziam, em coro com Marc Bloch: “Uma palavra, para resumir, domina e ilumina nossos estudos: ‘compreender’.” Todavia, essa forma de enxergar a compreensão, algo diferente da proposta por Bloch, sempre trouxe, tacitamente, uma esterilidade diante das questões de nosso tempo. Como se pudéssemos separar, de um lado, o ofício e, de outro, o indivíduo. Não concebo como minha esta visão sobre o ofício. Sempre me foi importante a relação afetiva com os objetos de pesquisa, mantendo sempre próximas as perspectivas de compreensão e transformação. Para além da relação passado/presente, o futuro também habita, na medida do possível, minha mesa de pesquisa. Isso, é claro, não pode nos distanciar da “busca da verdade como compromisso ético moral”, conforme as palavras de Maria Paula Araújo.


Photo by Gabriel Crismariu on Unsplash.

Assim, na busca da verdade histórica sobre o passado, é obvio que nosso objetivo permanece sendo a compreensão. Permanece, conforme nos diz François Hartog:

"o trabalho de identificar as regularidades, apreender as continuidades ou atualizar as fendas, as roturas; de enfatizar, de acordo com os momentos, uma história mais atenta às séries e à continuidade ou mais interessada pelas rupturas e o descontínuo; de privilegiar modelos socioeconômicos ou a abordagem biográfica; e de colocar e recolocar, de novo e de novo, a questão da mudança na história e em história."

“Mudança na história e em história”. Recolocar, sempre, a questão da mudança. Demonstrar como nada é natural. Como tudo é fruto de construção social. Fruto de conjunturas específicas, com as quais se relaciona um passado específico. Enfatizando este tipo próprio de compreensão, os historiadores, com seus respectivos trabalhos nos mais variados temas, constroem, por consequência, que nada deve parecer impossível de mudar, como disse sabiamente Bertold Brecht e com o qual não devemos nos furtar de concordar.


Se precisamos, conforme as palavras de Hartog, enquanto sociedade, “articular de novo as categorias passado, presente e futuro, sem que venha a se instaurar o monopólio ou a tirania de nenhuma delas”, é importante, também, que o futuro volte – ou permaneça – à mesa dos historiadores, sempre interessados em compreender o passado e o presente. Em um momento em que este ofício sofre duros ataques, reafirmemos nosso compromisso com a verdade histórica, mas também com um futuro em que possamos exercer sem entraves essa função social de tornar inteligíveis processos e mudanças sociais passadas e presentes.


Victor Serge, revolucionário belga, descreve, em suas memórias, um sentimento que o acompanhou durante toda a primeira parte da vida: “o de viver num mundo sem evasão possível onde só restava lutar por uma evasão impossível”. Lutando por uma evasão impossível, em uma época, como a nossa, “mais que nunca exposta às toxinas da mentira e do falso rumor”, que a História e os historiadores – como nos lembra Marc Bloch – tenham “o direito de contar entre suas glórias mais seguras ter assim, ao elaborar sua técnica, aberto aos homens um novo caminho rumo à verdade e, por conseguinte, àquilo que é justo.”


Um futuro vedado ainda é um futuro!


Créditos da imagem destacada: Photo by Mika Baumeister on Unsplash


  1. SARTRE, Jean-Paul apud MÉSZAROS, István. A obra de Sartre: busca da liberdade e desafio da história. São Paulo: Boitempo, 2012, p.12, grifos no original.

  2. Baseando-se, sobretudo, nas reflexões de Reinhart Koselleck e da antropologia de Marshall Sahlins, François Hartog desenvolve o conceito de regime de historicidade para explicar como uma determinada sociedade, em um determinado contexto histórico, articula as três categorias do tempo: passado, presente e futuro. Para maiores detalhes, cf. HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 e HARTOG, François. Crer em História. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

  3. Para maiores detalhes, cf. KOSELLECK. Reinhart. Futuro passado. Contribuições à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Puc-Rio, 2006.

  4. BLOCH, Ernst. O princípio esperança, tomo I. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005, p. 22.

  5. BLOCH, Marc.Apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 128.

  6. ARAUJO, Maria Paula. “Por uma história da esquerda brasileira”, Topoi, Rio de Janeiro, PPGHIS/UFRJ, v.5, 2002, p. 333-353. p. 345.

  7. HARTOG, Op. Cit., 2017, p. 24

  8. Idem, p. 231

  9. Inspirado em SERGE, Victor. Memorias de um revolucionário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 15.

  10. BLOCH, Op. Cit., p. 124


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