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Entrevista com o historiador Seth Garfield

Capa do livro Guaraná: How Brazil Embraced the World's Most Caffeine-Rich Plant
Capa do livro Guaraná: How Brazil Embraced the World's Most Caffeine-Rich Plant

A coluna Brasil por Brazil, editada por Lucas Koutsoukos-Chalhoub e Luiz Paulo Ferraz, busca aumentar as oportunidades para o público brasileiro conhecer pesquisas e obras sobre o Brasil produzidas fora do país ao entrevistar pesquisadores brasileiros e estrangeiros que atuam no exterior.


Seth Garfield é professor de história na University of Texas-Austin. Nesta entrevista, conversamos sobre seu último livro Guaraná: How Brazil Embraced the World's Most Caffeine-Rich Plant (Guaraná: como o Brasil abraçou a planta mais rica em cafeína no mundo, em tradução livre) publicado pela University of North Carolina Press em 2022.


Qual o tema do livro e como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Meu livro traça a evolução do guaraná de uma planta cultivada desde o período pré-colombiano na região do Baixo Amazonas pelo povo Sateré-Mawé até tornar-se o ingrediente do homônimo refrigerante brasileiro. Sou um historiador da Amazônia, do Brasil Indígena, do meio ambiente e das commodities, então escrever uma história do guaraná me permitiu entrelaçar essas diversas áreas de interesse.

Dado o uso do guaraná como alimento indígena e insumo industrial, assim como um marcador da Indigeneidade e da identidade nacional brasileira, o tema ofereceu várias linhas de investigação histórica, tanto que expandi o escopo temporal do projeto da trajetória da planta desde o período pré-colombiano até os dias atuais.

Por meio de um relato histórico de longa duração da apropriação, transformação e circulação da planta, espero que os leitores possam apreciar a complexidade da sociedade e da história brasileiras e ter uma melhor compreensão da resiliência das populações indígenas do Brasil. Como norte-americano que ensina História do Brasil nos Estados Unidos, há muito tempo me esforço para combater estereótipos prejudiciais sobre o Brasil e seus povos indígenas, e espero que meu livro sirva a esse propósito.

Histórias de alimentos e de outros objetos cotidianos também possuem uma maneira única de tocar o leitor, acredito eu, devido à sua proximidade no dia a dia. E ao desfamiliarizar o familiar, ao reconstruir os processos pelos quais o refrigerante de guaraná se tornou item de consumo cotidiano e símbolo da identidade nacional no Brasil, a disciplina de História tem a capacidade de fazer o leitor repensar crenças e práticas que se tornaram arraigadas e normalizadas.


Como você enxerga a contribuição do seu livro para a historiografia?

Embora o refrigerante de guaraná seja um ícone da identidade nacional brasileira – assim como a Coca-Cola é nos Estados Unidos –, não temos nenhuma monografia em português ou inglês dedicada à história da planta e da bebida. A omissão é bastante estranha, dada a extensa historiografia sobre samba, carnaval, futebol e outros ícones do nacionalismo brasileiro que são muitas vezes apontados como marcas da chamada “democracia racial” do país.

Historiador Seth Garfield
Historiador estadunidense Seth Garfield

Sem me aprofundar neste ponto, argumento que essa lacuna em relação ao guaraná decorre de vieses epistemológicos, bem como de desafios metodológicos que as novas tendências da historiografia e a acessibilidade às fontes digitais felizmente serviram para mitigar. Eu me esforcei neste livro, no entanto, não apenas para preencher uma lacuna na literatura histórica, mas para propor abordagens metodológicas para empurrar a historiografia brasileira em novas direções.

Isso inclui uma narrativa que perpassa vários lugares, acompanhando a trajetória da mercadoria (o foco do livro vai da Amazônia rural e urbana a São Paulo e Rio de Janeiro, a São Luís, à Europa e aos Estados Unidos), a mescla de historiografias (histórias dos povos indígenas, medicina, ciência, drogas, alimentação e consumismo) e diálogos interdisciplinares (em grande parte com a antropologia); e histórias “vistas de cima” e “vistas de baixo”.


Como seu livro dialoga com a historiografia brasileira, e que obras e autores do Brasil te ajudaram a pensar o tema?

O amplo escopo do livro exigiu um diálogo com vários historiadores e cientistas sociais do Brasil. A historiografia brasileira é incrivelmente rica e a produção de historiadores acadêmicos no Brasil é prolífica. Ao realizar minha pesquisa, tive uma experiência estimulante e de muito aprendizado ao conhecer trabalhos sobre um determinado tema de relevância publicado no BrasilHá muitos autores para citar aqui, então a lista a seguir não pretende ser exaustiva, e peço desculpas antecipadamente pelas omissões. Como o livro dialoga com várias historiografias, talvez a melhor maneira de responder a essa pergunta seja listar por tópicos.

Sobre as histórias da alimentação, estimulantes, nutrição e corpo no Brasil: Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Henrique Carneiro, Carlos Augusto Monteiro, Joana Monteleone, Denise Bernuzzi de Sant’Anna. Sobre a História Indígena: Vania Moreira, Kaori Kodama, John Manuel Monteiro, João Pacheco de Oliveira, Manuela Carneiro da Cunha, Carlos Moreira Neto, Eduardo Viveiros de Castro. Sobre a história dos Sateré-Mawé e do guaraná: Sônia Lorenz, Gabriel Alvarez, Alba Figueroa. Sobre a história da Amazônia pré-colombiana, colonial e oitocentista: Charles Clement, Rafael Chambouleyron, Marcio Henrique, Karl Arenz, Manoel Fernandes de Sousa.

Sobre as histórias do meio ambiente, botânica, ciência e medicina no Brasil: Ângela Domingues, Lorelai Kury, Nelson Sayad, Maria Margaret Lopes, Magali Romero Sá, Dominichi Miranda de Sá, Flavio Edler, Tânia Pimenta, Márcia Moisés Ribeiro e Regina Horta Duarte. Sobre a história da família e do lar, industrialização e consumismo: Antonio Candido, Renato Ortiz e João Luiz Máximo da Silva.

Esses são os estudiosos (em grande parte) brasileiros que influenciaram meu trabalho, mas o livro também dialoga com estudos de brasilianistas e latino-americanistas que não são brasileiros, bem como trabalhos mais gerais de historiadores e cientistas sociais que estudam alimentos, drogas e produção de conhecimento.


Quais foram as principais fontes utilizadas em sua pesquisa e como você chegou até elas?

Como o guaraná nunca fez parte do complexo escravocrata da plantation e nem se destacou como uma mercadoria de exportação em larga escala, seu cultivo não gerou o acervo documental de outros produtos agrícolas brasileiros, como o café e o açúcar. E diferentemente da cocaína, do ópio ou da maconha, o guaraná nunca foi criminalizado, poupando seus consumidores do estigma e da prisão, mas excluindo a droga da vasta documentação das burocracias estatais implicadas na biopolítica coercitiva do capitalismo industrial e na construção racializada do vício nas sociedades modernas.


Como historiadores, sabemos que as fontes determinam a forma e o alcance de nossa pesquisa, e meu livro reflete de muitas maneiras as opções que enfrentei, dada a disponibilidade (e a desigualdade) de materiais históricos. O livro se baseia em evidências arqueológicas, crônicas missionárias, relatos de naturalistas, relatórios do governo brasileiro do século XIX, biografias, revistas farmacêuticas brasileiras e norte-americanas, anais de simpósios científicos, colunas de jornais, anúncios populares e testemunhos indígenas orais e na imprensa.


Qual a história mais interessante que você se deparou ao longo da pesquisa para o livro ou a que mais te surpreendeu?

Houve tanta história e historiografia que tive que aprender ao longo do caminho que, de certa forma, cada capítulo pareceu uma surpresa (ou uma luta) enquanto eu procurava me orientar. Mas devo dizer que minha maior surpresa (e desvio) foi saber que o guaraná havia sido comercializado como farmacêutico nos Estados Unidos entre o final do século XIX e o início do século XX – inclusive como aromatizante para água gaseificada. Isso significa que, tecnicamente, o refrigerante de guaraná foi introduzido como medicamento patenteado nos Estados Unidos antes do Brasil? Cheguei até a encontrar planos para transplantar guaraná para as colônias britânicas, como havia sido feito com sucesso com a borracha amazônica. Igualmente intrigante foi com que rapidez a mania do guaraná desapareceu na Europa do fin-de-siècle e nos Estados Unidos, devido ao alto custo e às dificuldades na cadeia de suprimentos, a alegações de ineficácia ou adulteração e, finalmente, ao surgimento de medicamentos sintéticos para tratar dores de cabeça e enxaquecas, como a aspirina.

Um dos detratores proeminentes do guaraná nos Estados Unidos foi John Pemberton, farmacêutico da Geórgia – mas ele certamente tinha segundas intenções para questionar a eficácia do guaraná, pois foi ele quem inventou a fórmula da Coca-Cola. Acho que o artigo de Pemberton atacando o guaraná foi a minha descoberta mais louca no arquivo virtual. A denúncia certamente sugere que a rivalidade entre Coca-Cola e Guaraná Antarctica tem raízes mais profundas do que eu pensava!

Na pesquisa também me fascinou como a planta/bebida passou a representar para um conjunto variado de elites no Brasil – missionários, estadistas, cientistas, comerciantes, industriais e marqueteiros – a possibilidade de um futuro “melhor” para sua nação: seja um desenvolvimento “ordenado” da Amazônia, a aculturação dos povos indígenas, a ascensão da mulher “moderna”, a industrialização da economia, o triunfo do agronegócio ou uma fonte de excepcionalismo e orgulho nacional.

Em relação à história Sateré-Mawé, o que chama a atenção é como o guaraná tem sido fundamental para a manutenção de um sentido distinto de estar no mundo do povo indígena, além de facilitar a aquisição de bens e conhecimentos externos que permitiram que suas comunidades resistissem aos traumas do colonialismo. Os temas mencionados aparecem ao longo do livro, que a história de um objeto ao longo de um grande período e de múltiplas perspectivas (produtor, consumidor, técnico e comerciante) nos permite explorar.


Que perguntas o seu livro deixa em aberto, ou que novos caminhos você espera que sejam explorados em pesquisas futuras sobre o tema?

Metodologicamente, acho que meu livro levanta questões sobre uma história mais ampla: o que perdemos e ganhamos em uma abordagem temporal e tematicamente mais difusa do que a maioria das monografias tradicionais? Por exemplo, ainda há muito a aprender sobre a História Indígena no Brasil. Felizmente, já existe uma historiografia robusta sobre o tema, mas ainda há trabalho a ser feito. Procurei ao máximo reconstruir a história Sateré-Mawé (em relação à história do guaraná), mas fui limitado pelo material de origem arquivística encontrado e pelas limitações no trabalho de campo e na condução de histórias orais durante uma pandemia. São lacunas que precisam ser preenchidas.

Em relação às futuras pesquisas acadêmicas de historiadores do Brasil, acho que histórias de plantas, alimentos e commodities são assuntos extremamente promissores. As histórias materiais têm o potencial de abrir janelas para tantas facetas da história e da vida cotidiana: produção, distribuição, consumo, representação, afeto e formação de identidade. Em outras palavras, eles permitem que os historiadores olhem para questões de experiência vivida, status, hierarquia e poder na sociedade a partir de perspectivas variadas.


 

Esta entrevista ocorreu por escrito e foi editada antes da publicação.

Contate a coluna em brasilporbrazil@gmail.com

Lucas Koutsoukos-Chalhoub

Luiz Paulo Ferraz


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