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  • Foto do escritorCaio Fernandes Barbosa

Esperando a tradução de Speaking of Flowers

Para muitos, 2013 tem um significado especial, assim como 1968, outro ano tido emblemático na história brasileira. Victoria Langland considera as duas datas relevantes. Em 2013, ela publicou seu primeiro livro individual, Speaking of Flowers: student movements and the making and remembering of 1968 in military Brazil, uma obra que trata da grande onda de protestos juvenis no Brasil no final da década de 1960. Apesar de sua temática e de sua sintonia com o momento do “levante” de junho de 2013, o livro ainda não ganhou uma tradução para o português. Passou despercebido pelo mercado editorial brasileiro.


Victoria Langland é uma referência entre os estudiosos sobre a história do Brasil contemporâneo nos Estados Unidos. Professora do programa de Literatura, Línguas Românicas e História da Universidade de Michigan, atualmente é diretora do Centro de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos. Além disso, está à frente da Brazil Initiative (Iniciativa Brasil), uma ampla ação para promover pesquisa, ensino e atividades sobre o Brasil entre estudantes e professores da Universidade de Michigan, que busca aumentar as colaborações com instituições e pesquisadores brasileiros. Langland é especializada em história latino-americana do século XX, principalmente do Brasil e Cone Sul, e escreve sobre gênero, ditadura, usos da memória, estudantes e outros movimentos sociais. Sua preocupação mais geral é analisar as interseções entre cultura e poder. Antes de publicar Speaking of Flowers, ela organizou junto com Elizabeth Jelin uma coletânea chamada Monumentos, memoriales y marcas territoriales (Siglo XXI, 2003). Mais recentemente, foi coeditora da publicação The Brazil reader: history, culture, politics (Duke University Press, 2019) ao lado de outros dois grandes nomes dos estudos sobre Brasil: Lilia Schwarcz e James Green.


Speaking of Flowers – ou “Falando de Flores”, em português – é um estudo sobre o ativismo estudantil durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) e um exame da própria elaboração da ideia de ativismo estudantil. Langland defende que essa noção foi transformada drasticamente em resposta aos protestos estudantis de 1968, produzindo reverberações nas manifestações estudantis contemporâneas. Em termos amplos, o livro busca explicar por que os estudantes se engajaram na política como estudantes e não através de outras identidades possíveis. A autora analisa a mudança gradual e diversa na forma como aqueles estudantes brasileiros construíram, defenderam e redefiniram seu direito à participação política.


Jornal Correio do Povo, 31 mar. 1968. Reprodução.

Speaking of Flowers proporciona ao menos três contribuições para a historiografia da ditadura brasileira:

1) Contribui para compreendermos as ações violentas do Estado no sentido de desencorajar os protestos estudantis. Tais ações são entendidas como uma força dialética que impulsionou estudantes individualmente aos protestos e possibilitou as condições subjetivas necessárias para que as organizações estudantis se legitimassem como um conjunto mais abrangente de jovens. As entidades estudantis promoveram a ideia de ativismo por meio de apelos à militância coletiva, ao martírio e à masculinidade.

Langland argumenta que, além do gênero das lideranças, majoritariamente homens, o ativismo estudantil era apresentado, muitas vezes, como um empreendimento masculino, especialmente à medida que os protestos se tornavam mais violentos. Para ela, essa celebração da bravura masculina poderia ser vista na reação estudantil contra a violência policial, na lógica de martírio das organizações armadas de esquerda, nas anedotas para ridicularizar os militares e na resistência silenciosa nas salas de tortura. Esse imaginário da política como algo masculino era reproduzido tanto para as organizações e movimentos de esquerda – mesmo diante da crescente presença feminina –, quanto para as forças militares, cuja participação de mulheres era quase sempre considerada intrigante, sexualizada e sinal de deterioração da ordem social e de infiltração comunista.

2) Speaking of Flowers adiciona uma sofisticada análise de gênero às pesquisas sobre 1968 e à história do ativismo estudantil de modo geral, explorando as maneiras pelas quais o gênero funcionou como uma variante capaz de definir e autorizar o ativismo estudantil. Estudantes do sexo masculino e feminino enfrentaram diferentes expectativas comportamentais, sendo que ideias de gênero sobre formas apropriadas de ativismo político marcaram as organizações estudantis. A maior flexibilidade da moralidade sexual, a defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres e o aumento do número de mulheres nas universidades brasileiras foram acompanhadas do crescimento da presença feminina nas manifestações e organizações políticas. Mesmo que, frequentemente, essa presença fosse relegada a atividades consideradas menos perigosas, as mudanças nos padrões de relação de gênero nos anos 1960 foram incorporados à memória da geração de 1968 e seguiram reverberando nas gerações seguintes do movimento estudantil.

3) Victoria Langland propõe uma síntese entre os fatores globais e locais dos protestos de 1968. “Ao invés de simplesmente perguntar sobre o grau em que os movimentos estudantis locais estavam conectados ou influenciados por aqueles em outros lugares”, Langland sugere que “devemos examinar como crenças, medos e suspeitas contemporâneos sobre tais conexões afetaram o curso dos eventos locais” (2013, p. 9. Tradução do autor.). Assim, ela defende que estudantes e forças repressivas do Estado recorreram ao cenário internacional para reforçar suas próprias posições discursivas e ideológicas.


Em 6 de maio de 1968, estudantes enfrentaram a polícia de choque francesa durante uma manifestação perto da Universidade de Sorbonne, em Paris. Foto: AFP. Reprodução.

Parte importante desse trabalho, as entrevistas orais ou depoimentos publicados nos levam a refletir sobre o processo de construção da memória estudantil e de sua imbricação orgânica com a geração de 1968. A cultura imagética das passeatas, as músicas de protesto e a ideia do mártir masculino foram fundamentais na consolidação de um repertório comportamental do movimento estudantil brasileiro, que continua sendo revisitado.

Além do uso de fontes orais e de relatos do Projeto Memória do Movimento Estudantil (Fundação Roberto Marinho), o livro é fruto de pesquisa arquivística em acervos brasileiros e estadunidenses. As publicações estudantis analisadas, por exemplo, estão em posse do Arquivo Edgard Leuenroth, da Universidade Estadual de Campinas, e nos acervos pessoais de Daniel Aarão Reis Filho, Ângela Borba e Jean Marc von der Weid. A documentação das esquerdas clandestinas relacionada com suas atividades políticas foi acessada no Arquivo do Estado do Rio de Janeiro e no Arquivo Público do Estado de São Paulo, que possuem os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O material de natureza jornalística foi analisado pela autora no Laboratório de Estudo do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além disso, Langland consultou documentos do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV).

Dois arquivos estrangeiros também foram examinados: o fundo Register of the United States National Student Association dos Hoover Institution Archives, na Universidade de Stanford (Califórnia), onde ela descobriu as imagens da sede da UNE que compõem o livro; e o fundo State Department Central Files dos United States National Archives, onde ela encontrou, dentre outras fontes, documentos da embaixada estadunidense no Rio de Janeiro.

O prestígio da autora, a meticulosa pesquisa histórica realizada e o contexto político favorável não foram suficientes para que a obra fosse traduzida para o português. O idioma e o alto preço de um livro importado, apesar de limitarem o acesso às ideias levantadas por Victoria Langland, não interditaram completamente o debate. Seus artigos publicados em espanhol, por exemplo, ajudaram a manter a curiosidade pelo trabalho da autora no Brasil.

Com algum esforço, a publicação passou a fazer parte do repertório de teses de doutorado e dissertações de mestrado no país. Em razão das adversidades mencionadas, o livro ficou restrito a pesquisadores e pesquisadoras, ainda que tenha potencial para atingir um número maior de leitores entre estudantes, curiosos e interessados nas polêmicas que o ano de 1968 despertam. Mesmo assim, a obra continua sendo fundamental para aqueles que estudam o movimento estudantil e juvenil no Brasil.

Créditos da imagem destacada: Corpo de Edson Luís sendo velado na Assembleia Legislativa da Guanabara. Foto: Reprodução.


 
  1. O atual projeto de pesquisa de Victoria Langland analisa historicamente o aleitamento materno no Brasil. Como a cultura, políticas públicas, marketing de fórmulas e outros fatores modificaram as crenças e práticas populares sobre nutrição infantil e corpo feminino.

REFERÊNCIA:

LANGLAND, Victoria. Speaking of Flowers: student movements and the making and remembering of 1968 in Military Brazil. Duke University Press, 2013.


Como citar este artigo:

BARBOSA, Caio Fernandes. Esperando a tradução de Speaking of Flowers. História da Ditadura, 26 set. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/esperandoatraducaodespeakingofflowers. Acesso em: [inserir data].


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