• Daniel Sartori Borges

Qual o objetivo da educação na sociedade do ‘óbito também é alta’?

Atualizado: 4 de mai.


Randolfe Rodrigues, vice-presidente, Omar Aziz, presidente, e Renan Calheiros, relator da CPI. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado. Wikimedia Commons.

Um dos eventos mais marcantes da política brasileira no último ano foi a CPI da COVID-19. Embora ela tenha terminado em termos formais, os efeitos da comissão ainda vão reverberar por muito tempo como uma marca viva na história do Brasil. Mesmo com as manobras para tumultuar as sessões e as estratégias de usar o silêncio, uma série de informações tenebrosas da realidade brasileira ficaram evidentes.


Sem dúvida, o episódio que mais me impactou foi o das denúncias feitas sobre as práticas da Prevent Senior. É impossível lidar tranquilamente com a perspectiva de que experiências médicas tão desumanas tenham sido feitas no Brasil em pleno 2021. Como uma sociedade permite esse tipo de atrocidade? Como é possível que experimentos científicos que colocam a vida de seus participantes em risco ainda sejam realizados friamente e sem o consentimento dos pacientes e seus familiares?


Depois de tudo o que a humanidade viveu na Segunda Guerra Mundial, das atrocidades cometidas pelo nazismo, da criação de códigos como o de Nuremberg – cujo objetivo era assegurar posturas éticas na pesquisa com humanos –, como tudo isso continua acontecendo? Afinal, o que move tamanha desumanização?


É claro que as respostas para essas perguntas indignadas não são simples. Assim como é óbvio que em um texto de divulgação não será possível desvendar todos os aspectos que envolvem essa realidade triste, bárbara e de difícil deglutição.


Contudo, como professor, não consigo parar de pensar que, em grande parte, o que está por trás da perpetuação dessa e de outras barbáries de nossa sociedade é a maneira como a educação funciona – não apenas nas escolas, mas enquanto sistema formador de indivíduos que convivem em sociedade. Se, como é comum ouvir, a educação é a base de tudo, é necessário que ela também possa ser identificada nas práticas desumanas que as acusações à Prevent Senior revelam.


Cabe então o questionamento: que educação é essa, que permite que pessoas doentes, em sua maioria idosas, sejam tratadas como cobaias de laboratório? Quais são os valores que estão na base dessa formação social? Quais objetivos uma sociedade pautada nesse modelo educacional quer alcançar?


Existe um conhecido texto de Theodor Adorno que talvez possa ajudar na reflexão. Intitulado Educação após Auschwitz, nele, Adorno reflete a respeito do modelo educacional que permitiu o surgimento de Auschwitz, além de propor algumas reflexões sobre como impedir que isso se repita.

Ao longo do texto, são apontados diversos aspectos que compõem uma sociedade (re)produtora da barbárie. Dentre eles, gostaria de destacar três:

1. Não tratar, elaborar ou debater a barbárie


Um dos argumentos centrais em toda a análise de Adorno é que a barbárie continuará existindo enquanto a sociedade se mantiver silenciada frente às atrocidades que marcam nossa história. Quando não se admite o contato com os problemas sociais, quando existe uma rejeição ao lidar com nossos traumas, demônios e crueldades, a perspectiva é justamente a de que tudo isso continue a se repetir.


Apenas para citar um exemplo concreto dessa realidade, podemos lembrar da fala de Regina Duarte, quando secretária de Cultura do governo Bolsonaro, que, em entrevista à BBC, minimizou os casos de tortura e as mortes ocorridas durante a ditadura militar. Incomodada com os apontamentos do entrevistador sobre o tema, para ela seria necessário ir “pra frente”, afinal de contas, na humanidade “não para de morrer”, “sempre houve tortura”, então, “pra que olhar pra trás?”


Nesse sentido, a recusa em lidar com as questões incômodas da sociedade é central no processo que faz com que elas continuem acontecendo. Fechar os olhos para os problemas, fingir que eles não existem ou, pior, acreditar que eles sempre existirão e por isso não temos por que elaborá-los ou tentar impedi-los, é fundamental para fazer com que eles continuem acontecendo. Somente a partir da percepção e investigação das mazelas sociais é que poderemos elaborar estratégias para combatê-las.


2. Desenvolver uma consciência coisificada


Outro aspecto que Adorno destaca em uma sociedade que promove a barbárie é o desenvolvimento de uma consciência coisificada. Sendo parte do que ele chama de “caráter manipulador” – pessoas que se enquadram cegamente em coletivos e assim convertem-se em algo como um material, dispostos a tratar a si e aos outros como uma massa amorfa –, a consciência coisificada interpreta toda a realidade como mercadoria, identificando tudo e todos como meras coisas, que podem ser trocadas, consumidas e comercializadas.


A acusação que a advogada Bruna Morato fez na CPI, sobre médicos que eram orientados a reduzir a oxigenação de pacientes que estavam de dez a catorze dias internados em determinadas UTIs, para que gradativamente evoluíssem a óbito e liberassem leitos, deixa clara a consciência coisificada. Dentro desta concepção de mundo, a vida pouco importa. Pessoas são entendidas apenas como mercadoria. Se é necessário que elas morram para manter a dinâmica econômica, então que assim seja. Afinal, “óbito também é alta”.


3. A incapacidade de amar a si e aos outros


Um último aspecto da sociedade formadora de Auschwitz que gostaria de destacar é a incapacidade de amar. Segundo Adorno, não seria possível ter ocorrido a arquitetura da morte de milhares de pessoas se, antes, não houvesse uma profunda indiferença em relação ao que acontece com todas as outras pessoas ao nosso redor – com exceção de umas poucas com quem mantemos vínculos estreitos, muitas vezes atrelados a determinados interesses.


Da mesma forma, todas as atrocidades que vimos acontecer ao longo da pandemia – da negação do perigo do vírus, passando pela recusa em utilizar equipamentos de proteção, pelo atraso intencional na compra de vacinas até a zombaria com as vítimas – não seriam possíveis sem que estivesse enraizado nos atores desse terror a incapacidade de amar, não apenas aos outros, mas também a si.


Uma vez que todas as relações humanas passam a ter na troca seu principal valor, ou seja, tornam-se mercadoria, passa a ser impossível estabelecer afeto e identificação com os demais. Quando a realidade aponta para uma lógica cada vez mais individualista e de competição, em que as pessoas correm cada vez mais atrás de seus próprios interesses e enxergam nos demais instrumentos – quando não empecilhos –, a afeição se torna cada vez menos provável. Nas palavras de Adorno: “a incapacidade para a identificação foi sem dúvida a condição psicológica mais importante para tornar possível algo como Auschwitz”.


Entrada para Auschwitz, um campo de concentração e extermínio nazista administrado pela Alemanha nazista na Polônia de 1940 a 1945 (1945). Wikimedia Commons (Arquivo Federal Alemão).

De toda forma, é importante destacar que, embora Adorno chame atenção para a questão psicológica dos indivíduos que promovem a barbárie, é necessário compreender que esse fenômeno é, antes de mais nada, social. É nesse sentido que a educação ganha centralidade. Seja ela formal ou não, é por meio de práticas educacionais que produzimos e reproduzimos valores e norteamos nossas ações. Então, quais seriam os valores fundamentais da nossa formação social?


Nesse sentido, Bruna Morato, novamente, pode fornecer pistas. De acordo com seu depoimento, havia um alinhamento entre as práticas da Prevent Senior e o governo de Jair Bolsonaro para satisfazer interesses do Ministério da Economia. Em termos gerais, por um lado, a empresa poderia iniciar um protocolo experimental com hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com COVID-19, sem sofrer fiscalização do Ministério da Saúde, reduzindo assim os custos da internação. Por outro, a existência de um possível tratamento precoce forneceria esperança para que as pessoas não fizessem o isolamento social, permitindo que a economia continuasse a girar normalmente.


Essas denúncias evidenciam práticas cruéis do governo em parceria com a iniciativa privada que colocam a economia acima da vida humana. Apesar de triste, essa não é uma perspectiva nova. Pelo contrário, Milton Friedman – um dos principais representantes da Escola de Chicago e uma das referências do ministro da Economia, Paulo Guedes – aponta em Capitalismo e Liberdade que, dentro da lógica neoliberal, o objetivo do governo deve ser proteger a liberdade da população contra os próprios compatriotas, preservando a lei e a ordem, reforçando contratos privados e promovendo mercados competitivos.


Nesse modelo, preocupações básicas com a vida dos cidadãos, como segurança e saúde, não são prioridades. Esta perspectiva fica ainda mais clara quando, ao tratar da educação profissional, Friedman iguala o investimento em capital humano ao investimento em máquinas e instalações, compreendendo que a função dos cidadãos na sociedade é aumentar a produtividade econômica do ser humano.


Como apontam os autores do artigo O senso comum neoliberal obscurantista e seus impactos na educação brasileira, os pressupostos do neoliberalismo reduzem a liberdade humana ao ato de vender a força de trabalho para comprar mercadorias ou comprar a força de trabalho para ampliar o capital. Diante deste modelo formativo, é comum que os indivíduos aceitem processos de desumanização, a ponto de naturalizar a morte de milhares de pessoas como uma necessidade para manter a economia funcionando.


É importante compreender que o neoliberalismo está presente na política brasileira desde, pelo menos, a década de 1990. Contudo, como elucidam Mayra Goulart da Silva e Theófilo Codeço Machado Rodrigues em O Populismo de Direita no Brasil: Neoliberalismo e Autoritarismo no Governo Bolsonaro, com Guedes e Bolsonaro a escola neoliberal foi levada ao seu extremo, fazendo emergir sua feição mais radical.


Presidente da República Jair Bolsonaro e o Ministro de Estado da Economia Paulo Roberto Nunes Guedes, durante declaração à imprensa. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR. Wikimedia Commons.

Assim, a denúncia presente nos depoimentos colhidos na CPI da COVID-19 desvela um aspecto tenebroso de nossa sociedade, mas que não é novo. Sob a perspectiva neoliberal de formação social, utilizar pacientes como cobaias de laboratório e conduzi-los a óbito pode ser justificável, se fizer com que a economia continue girando e crescendo.


Será possível romper com essa realidade? Talvez, mas para isso é necessário aceitar um elemento desesperador da oposição à barbárie e trabalhá-lo a partir de uma formação voltada à reflexão crítica e autônoma. Concordando com Adorno, a civilização origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Por isso, o único poder efetivo contra esse princípio desesperador é a autonomia, o poder para a reflexão e a autodeterminação.


Ou seja, se quisermos impedir que Auschwitz ou os experimentos como os da Prevent Senior continuem a se repetir, precisamos aceitar a monstruosidade que há no ser humano. Só então, em aliança com uma formação crítica e que não nega sua própria realidade, poderemos desenvolver a autonomia dos sujeitos para que sejam capazes de identificar sua barbárie e, assim, criar meios para que ela não continue a dominar a dinâmica social.


Ao longo da História, pessoas foram mortas de maneira orquestrada em prol de um suposto progresso econômico. Se, por um lado, não é simples transformar esta realidade, por outro, também não será fingindo que ela não existe e “sendo leves”, que conseguiremos resolver nossos problemas. Enquanto reproduzirmos um sistema que vê em tudo mera mercadoria, continuaremos matando a nós mesmos e aos outros ainda no berço, e essa morte continuará sendo sinônimo de alta.

Como citar este artigo:

BORGES, Daniel Sartori. Qual o objetivo da educação na sociedade do ‘óbito também é alta’?. História da Ditadura, 10 fev. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/qualoobjetivodaeducacaonasociedadedoobitotambemealta. Acesso em: [inserir data].



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