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  • Foto do escritorAline Carvalho

Damaris Lucena e seu testemunho à Comissão Nacional da Verdade

A busca por produzir memória sobre a ditadura militar (1964-1985) se iniciou quando esta ainda estava em vigor, uma tentativa sobretudo das artes visuais, da literatura e do cinema, que passaram a tomar como objeto os acontecimentos ocorridos após o golpe de 1964 (FERREIRA, 2014). Isso ajuda a entender que, desde muito cedo, houve, por parte de determinados indivíduos e grupos profissionais, o desejo de construir relatos históricos acerca do regime de exceção – o que foi se intensificando nos anos posteriores.


O uso do testemunho para produzir memórias passou a ser utilizado especialmente depois da experiência das II Guerra Mundial. Contexto em que certos grupos sociais, especialmente aqueles que experienciaram diretamente o evento traumático e seus familiares, após um período de silêncio, passaram a fazer uso desse gênero narrativo. Não há dúvidas sobre a dificuldade de produzir narrativas de memórias traumáticas. De todo modo, as reflexões sobre a ditadura, tanto durante quanto após o regime, fizeram uso dos testemunhos como meio de reconstituir com mais precisão os fatos históricos, principalmente seus aspectos ligados à subjetividade dos agentes que os viveram direta ou indiretamente. Lembrando que os indivíduos sobreviventes de eventos traumáticos podem expressar o que os mortos não mais podem dizer (HARTOG, 2013).


Damaris Lucena
Damaris Lucena. Fonte: Jornal A Verdade. Reprodução.

Neste texto, busco analisar o testemunho de Damaris Lucena fornecido à Comissão Nacional da Verdade (CNV): uma mulher que fora definida enquanto vítima civil pela Comissão e que fez uso desse espaço para narrar sua experiência de militante e presa política. Damaris Lucena foi uma mulher nordestina que veio de uma classe social pouco privilegiada, ou, para melhor dizer, sem privilégio algum. Nascida em uma cidade chamada Codó, no interior do Maranhão, viveu uma realidade de pobreza muito forte. Ainda assim, aos oito anos de idade já havia aprendido a ler. Segundo ela, era seu costume pegar os jornais e ir tentando descobrir sozinha a fonética e a junção das letras, até que se formassem palavras em sua cabeça.


Damaris passou anos de sua adolescência trabalhando na roça, quebrava coco babaçu – típico da região – e fazia outros tipos de atividades braçais em terras griladas: lavava e passava roupas, cortava lenha, carregava potes de água na cabeça, entre outras tarefas tidas socialmente como masculinas. Nesse tempo, ela já percebia que essas estratégias de sobrevivência precisavam ser usadas de modo clandestino para que os donos das terras não se dessem conta de sua presença. A realidade era de muita escassez: sua primeira consulta médica aconteceu apenas aos 17 anos de idade, o que ela viu como algo de “outro mundo”.


No início dos anos 1950, Damaris se mudou para São Paulo para encontrar seu marido, que havia partido em busca de emprego. Trabalhou numa empresa, porém foi demitida por ter se envolvido no sindicato dos têxteis. Em seu testemunho para a CNV, Damaris relata ser de origem africana, pois seu bisavô veio como escravo e teve seus filhos vendidos. Suas falas são carregadas pelo orgulho de ser negra, de ter uma boca carnuda e o cabelo crespo.


Após o envolvimento no sindicato, Damaris também passou a fazer parte do Partido Comunista do Brasil (PCB), já por volta de 1951. Em sua narrativa, ela vai evidenciando o pouco envolvimento com outras mulheres, demonstrando que o partido ainda era um espaço muito masculinizado. Antes da ditadura civil-militar se instaurar, em 1964. Damaris já havia sido presa, ainda que por poucas horas, pela participação em greves por melhorias salariais na indústria têxtil.


De acordo com seu relato à CNV, sua história com a ditadura se iniciou em 1963, antes mesmo do golpe, quando passou a fazer parte, junto com Seu Lucena, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Embora essa organização tenha sido criada em 1968, acreditamos que sua narrativa esteja se referindo aos companheiros com os quais já mantinha relação desde antes da ditadura ser instaurada. Damaris relata que sua casa era um aparelho, e que esse foi um erro cometido por eles: seus companheiros de luta frequentavam a casa, além de guardar armas, livros, remédios e dinheiro pertencentes ao grupo.


Quando sua casa foi invadida por policiais armados, seu marido preferiu revidar do que ser preso. Ao lançar mão de uma arma, ele foi morto na frente de Damaris e seus filhos, que ainda eram crianças. Ela relembra os gritos dos policiais: “Mata ela, mata ela, mata os filhos delas” (LUCENA, 2014, p. 15). Damaris viu seu marido ser executado com um tiro na cabeça:


Levaram meus filhos não sei pra onde, me jogaram num quarto e me cobriram de pancada. Aquele monte de delegado me dando pancada. Minha dentadura enganchou aqui na gengiva. Eu levei uns três ou quatro dias com a dentadura enganchada aqui. [...] Duas vezes que eu fui presa eu tive medo de morrer e deixar meus filhos na mão daqueles animais, daqueles bichos, nem bicho faz aquilo. Aquilo são uns monstros [...] (LUCENA, 2014. p. 15)

Ficha de Damaris de Oliveira Lucena.
Ficha de Damaris de Oliveira Lucena. Arquivo Público o Estado de São Paulo. Fonte: Memorial da Resistência de São Paulo.

Ditadura e Gênero


Durante as últimas décadas, desde o fim da ditadura, houve algumas produções que se preocuparam em evidenciar as experiências das mulheres, como Que bom te ver viva, Torre das donzelas e Mulheres que foram à luta armada. Tendo sido elaboradas em tempos e espaços diferentes, essas obras puderam produzir memórias e narrativas sobre as experiências de mulheres que atuaram de variadas maneiras durante a ditadura civil-militar brasileira.


É a partir dessas análises que podemos entender que existiu uma diferença em como homens e mulheres lutaram contra a ditadura, pois esses corpos lidaram com questões diferentes quando tiverem que enfrentar o cárcere. O rancor de Damaris Lucena pelo regime de exceção e por aqueles que contribuíram para a repressão é nítido em seu testemunho à CNV:


Essas ditaduras brasileiras fizeram muita injustiça, mas muita mesmo, e ainda resta a caterva [que] está por aí. A caterva está por aí. Vocês sabem, vocês sabem, porque vocês andam por aí. As catervas estão por aí, vivas ainda, e falando que é mentira e falando que não teve isso e que não teve aquilo. Semana passada eu estava vendo um tenente-coronel, um desgraçado desses aí, falando que é tudo mentira que não teve nada disso (LUCENA, 2014, p. 12). 

Durante o regime ditatorial, existiram variadas formas de tortura, como pau de arara, afogamento, cadeira do dragão, choques em diferentes partes do corpo, dentre outros. Contudo, existiram práticas de tortura destinadas exclusivamente aos corpos femininos. As próprias necessidades das mulheres eram diferentes das dos homens, e a negação desse atendimento e o uso disso como meio de intensificar a experiência da violência também é tida como tortura (FERNANDES, 2019).


“Essa mulher! Leva essa mulher pra lá! Essa mulher está fedendo.” Claro e estava mesmo. Sem tomar banho, menstruada. Tinha que estar fedendo. “Leva essa mulher fedorenta pra lá. Tira essa mulher daqui.” E a pancadaria e os choques. E os murros na cara. Bofetada daqui, bofetada dali. Parecia que você era um... tinha matado uma pessoa. Um dia eu falei pra ele: “Escuta, eu já fiz algum mal pra vocês, pra família de vocês?” (LUCENA, 2014, p. 17-18).

A condição de precariedade relacionada ao corpo feminino era, portanto, pior que a dos homens, visto que as questões fisiológicas e a ausência de qualquer método de higiene deixavam as mulheres numa situação ainda mais humilhante e degradante. Além das questões físicas, ainda havia uma outra dimensão, que era a da maternidade: “foram momentos muitos difíceis ver meus filhos serem massacrados. Eu sabia que eles iam massacrar meus filhos porque eles falaram. Mas eles, coitados, não sabiam de nada o que é que eles iam falar. Eles não sabiam” (LUCENA, 2014, p. 16).


A maternidade foi usada como uma forma institucionalizada de torturar as mulheres (TELES, 2015). No âmbito social, ainda hoje, as responsabilidades perante um filho são mais severas com as mulheres, sendo-lhes destinada a obrigação de protegê-los. Nesse sentido, torna-se evidente que vários aspectos diferenciavam a forma como as mulheres vivenciaram a repressão, sobretudo quando eram encarceradas. As questões de gênero, portanto, não podem ser menosprezadas quando analisamos o arbítrio do Estado brasileiro no período de nossa última ditadura.


 

Referências:

FERNANDES, Analu D. Ditadura e tortura sexual: a visão das ex-presas políticas nas ditaduras civil-militar do Brasil (1964-1985) e da Argentina (1976-1983). Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Brasília, 2019.

FERREIRA, Jorge; GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.


Como citar este artigo:

CARVALHO, Maria Aline S. Damaris Lucena: testemunho à Comissão Nacional da Verdade. História da Ditadura, 19 set. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/damaris-lucena-e-seu-testemunho-a-comissao-nacional-da-verdade. Acesso em: [inserir data].

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