Durante a redemocratização, a Pastoral do Menor ofereceu uma leitura teológica sobre a marginalização social das crianças e dos adolescentes
- Camila Serafim Daminelli
- 3 days ago
- 10 min read
Updated: 1 day ago
Na segunda metade do século XX, os quadros da Igreja Católica no Brasil foram marcados por figuras excepcionalmente dedicadas às questões sociais. A oficialidade engajada, identificada ou não com a Teologia da Libertação, deixou marcas profundas na memória histórica brasileira, endossando o que Andreas Huyssen (2000) designou de sedução da [pela] memória. Com o advento da Nova República, consolidou-se a narrativa de que a Igreja Católica fez parte dos movimentos de resistência à ditadura por meio da atuação de seus “bispos progressistas” (Gomes, 2014). A narrativa é parte do esforço da Igreja em afastar-se do regime com o qual colaborou reiteradas vezes, de forma coletiva, enquanto Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e também individualmente. Em iniciativas de caráter social, no entanto, a Igreja Católica e um conjunto de bispos engajados com sua doutrina social construíram espaços de escuta e acolhimento pioneiros, que intuíram caminhos para políticas sociais durante o período da redemocratização. Este texto busca, através da análise da trajetória de dom Luciano Mendes de Almeida e das cartilhas de formação da Pastoral do Menor, apontar processos de subjetivação singulares que permitiram à Igreja Católica avançar sobre públicos não alcançados por outras fontes de discurso sobre o “menor”.
Dom Luciano Mendes de Almeida e a Igreja Povo de Deus
As informações biográficas sobre dom Luciano são escassas. Em sua maioria, disponíveis em fontes não acadêmicas, como a Wikipédia, entrevistas e publicações da Arquidiocese de Mariana[1]. Dom Luciano Mendes de Almeida nasceu na cidade do Rio de Janeiro em outubro de 1930, em família aristocrata. Seu trisavô fora senador do Império, e o avô recebeu o título de Conde, herdado pelo irmão mais velho – Cândido Mendes de Almeida, imortal da Academia Brasileira de Letras, fundador e reitor da Universidade Cândido Mendes. Dadas as suas origens, dom Luciano trilhou um caminho ordinário para um religioso do seu tempo. Estudou em colégios jesuítas, ingressando na ordem em 1947. Frequentou a Casa de Formação dos Jesuítas, em Nova Friburgo, e em Roma, onde recebeu ordenação presbiteral em 1958.
Nomeado bispo auxiliar da cidade de São Paulo em 1976, recebeu ordenação episcopal pelas mãos de dom Paulo Evaristo Arns. Embora tenha sido nomeado bispo de Mariana posteriormente, em 1988, concomitante com diversas funções no episcopado latino-americano e na CNBB, foi sua atuação junto à Arquidiocese de São Paulo, entre 1979 e 1987, que marcou profundamente as lutas e as tensões vividas pelo catolicismo no país, período em que atuou também como secretário-geral da entidade.
Quando dom Luciano fora ordenado, no final dos anos 1950, a Igreja Católica na América Latina se encontrava em crescente efervescência. Desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja havia se voltado a ser uma Igreja “Povo de Deus”, superando, em parte, os momentos teológicos anteriores – as assim chamadas Igreja Cristandade, centrada nos sacramentos e no ordenamento social, e a Igreja Sociedade Perfeita, inspirada no Concílio de Trento e pautada na noção de salvação eterna (Carvalhal, 2007). Essa nova concepção eclesiológica, como destacam os documentos conciliares, implicava uma Igreja encarnada no mundo dos pobres e comprometida com sua libertação (Souza, 2019).
A Conferência do Episcopado Latino-americano (CELAM) realizada em Medellín, em 1968, foi o ponto de inflexão: nela se reafirmou que “a hora atual não deve se deixar escoar fora da palavra, mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação” (CELAM, 1968, s./p.). A partir desse chamado, D. Luciano incorporou em sua atuação episcopal um modelo de presença que privilegiava o encontro com os mais frágeis, sobretudo a infância pobre urbana. Inspirado pelo Evangelho e pelas diretrizes do CELAM, dom Luciano acreditava que a presença da Igreja junto aos marginalizados deveria ser mais do que caridade: adotar o pobre como prioridade era uma exigência de justiça divinamente inspirada.
Sua atuação na periferia leste da capital paulista, especialmente em bairros como Belenzinho – onde havia um centro de internação da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem/SP) – foi marcada por escuta sensível, pela proximidade com os meninos e meninas de rua, e pela criação de iniciativas que iriam se tornar a base da Pastoral do Menor. Essa atuação concreta se ancorava numa compreensão teológica e espiritual da infância e da juventude. Como destaca o padre Júlio Lancellotti:
a própria história da Pastoral do Menor tem na sua certidão de nascimento o nome de dom Luciano Mendes aliado à sua preocupação primeira: os adolescentes em conflito com a lei, os chamados infratores, dando assim, início à liberdade assistida, comunitária. Logo após, vieram os centros educacionais comunitários, o trabalho com meninos e meninas, as casas de apoio e tantas outras maneiras de construir cidadania com humanidade e participação. (Silveira; Oliveira; Ferreira, 2006, p. 2).O engajamento de dom Luciano foi característico de um expressivo grupo de bispos que, inspirados no Concílio Vaticano II e na Assembleia Episcopal de Medellín, se dispuseram a levar avante um projeto de renovação pastoral (Azzi, 2006). No plano institucional, sua presença na CNBB como secretário-geral (1979-1987) e posteriormente como presidente (1987-1995) foi decisiva para fortalecer as Pastorais Sociais e a nova identidade da Igreja comprometida com os pobres. Ele foi responsável por mediar os caminhos entre a Igreja e a redemocratização no campo dos direitos das infâncias e juventudes, contribuindo para a formação de uma nova linguagem pastoral em defesa da menoridade, mas também da população rural sem-terra, das vítimas de violência policial e dos encarcerados.
Uma leitura teologicamente inspirada: as cartilhas da Pastoral do Menor[2]
A atuação da Pastoral do Menor foi além do plano assistencial ou institucional. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, consolidou-se também como um campo de produção teológica e pedagógica, voltado à formação de agentes pastorais, lideranças comunitárias e educadores populares. Em especial no momento da redemocratização do país, as cartilhas de formação elaboradas pela CNBB, como História da Pastoral do Menor (Imagem 1) e o Projeto Político da Pastoral do Menor (Imagem 2) propunham uma teologia construída a partir da realidade concreta das infâncias e juventudes empobrecidas e marginalizadas. Mais que documentos doutrinários, essas cartilhas funcionaram como dispositivos de subjetivação cristã, moldando práticas e compromissos coletivos da comunidade católica

O momento político e social era favorável, em geral, ao ideário dos direitos. Ao longo da ditadura, a Igreja Católica no Brasil transitou do apoio ao golpe de 1964 para uma postura crítica ao regime, movimento que não foi linear nem homogêneo. A CNBB, recém-criada à época, chegou a agradecer aos militares “em nome dos supremos interesses da nação” (Gomes, 2014, p. 43), mas a intensificação da repressão, especialmente após o AI-5 (1968), atingindo inclusive seus próprios quadros, gerou fissuras internas e impulsionou uma progressiva ruptura institucional.

Embora nunca posicionada de forma monolítica, sem dissensos, essa mudança de postura da Igreja em relação à ditadura se expressou em documentos como Não oprimas teu irmão (1975), Comunicação Pastoral ao povo de Deus (1976) e Exigências cristãs de uma nova ordem política (1977), que denunciavam o autoritarismo de parte do Estado, além da desigualdade social “ocasionada por uma política de desenvolvimento econômico excludente, e, também, no enfraquecimento da participação democrática da população” (Gomes, 2014, p. 76). Durante a redemocratização, a Igreja somou-se a uma profusão de vozes e movimentos sociais que denunciavam violações de direitos humanos, fortalecendo as Pastorais Sociais, como a Pastoral do Menor, e articulando-se com a reorganização da sociedade civil.
Nas Cartilhas de Formação de Agentes Pastorais, inspiradas por uma espiritualidade centrada na figura do “Cristo-Menor”, propunha-se uma leitura bíblica da menoridade, compreendida como presença sagrada, lugar de manifestação do Reino de Deus e interpeladora da consciência cristã diante da exclusão. As cartilhas possuem datação que avança sobre o período da redemocratização, contemplando a primeira década da Nova República, possivelmente resultado de reedições das cartilhas originais. No Projeto Político da Pastoral do Menor, por exemplo, temos que “é a força do Espírito da Vida agindo em nós, que dá entusiasmo e ânimo para o trabalho. [...] É através de sua mística que a Pastoral do Menor se manifesta como presença da Igreja na defesa da vida” (CNBB, 1999, p. 24).
A produção dessas cartilhas acompanhava o esforço da Pastoral em construir uma identidade própria, que se distanciasse do menorismo institucional, do clientelismo político ou do assistencialismo eclesial. O que se buscava era um novo modo de estar no mundo: um cristianismo sensível à dor social, e capaz de operar uma crítica das estruturas. Como demonstramos em análise do referido material (Daminelli; Alves, 2025), o papel das cartilhas não era apenas formativo, mas também performativo: elas ensinavam a ver, sentir e agir a partir do lugar dos meninos e meninas em situação de rua, violentados pelo Estado e seus agentes, vitimados pela desigualdade estrutural. Nessa chave interpretativa, quem haveria de negar empatia e respeito ao “menor” que, como o próprio Cristo, também sofria com a marginalização e a injustiça?
A fundamentação bíblico-teológica que orientava a ação prática da Pastoral, como manifestação do Espírito Santo, se levantava em favor das crianças marginalizadas, tal como Cristo fez: “Deus ouviu os gritos da criança do jeito que ela está aí” (Gn 21. 17-19). Essa opção pelas crianças é reafirmada em “Quem receber em meu nome uma destas crianças, estará recebendo a mim” (Mc 9. 37), lema transformado pela Campanha da Fraternidade de 1987 em “Quem acolhe o Menor, a mim acolhe” (CNBB, 1987).

Nessa perspectiva, a Igreja se diferenciava de outros discursos sobre direitos ao reconhecer no menor a “revelação histórica de Jesus Cristo [...] ele é o Deus feito pobre” (Della Giustina, 1987, p. 67). A mobilização nacional da Igreja Católica, desde a Campanha da Fraternidade de 1987, levou a questão da menoridade a públicos antes indiferentes. Essa amplitude resultou de mecanismos próprios da ação pastoral, como a leitura nas comunidades eclesiais de base, a reprodução do ideário no âmbito familiar e a vinculação do tema às reflexões teológicas em diferentes espaços alcançados pela Igreja, cujo ápice é a identificação do “martírio do menor” com o Jesus sofredor (Machieski, 2021) (Imagem 3).
Essa produção teológica se inseriu em um contexto tenso: a institucionalidade da Igreja nem sempre acompanhava o teor evangélico de suas pastorais sociais. Muitas vezes, a dimensão profética dos documentos se chocava com a lógica hierárquica e os limites dogmáticos. No contexto da atuação da Igreja na Constituinte, por exemplo, o peso da tradição se fez notar na “defesa e na proteção da vida das crianças e dos adolescentes” o que, naquele contexto, implicava também o rechaço ao aborto em qualquer das situações em que fosse demandado. A Pastoral do Menor, evidentemente, acompanhava a posição da Igreja nessa pauta. A Igreja saiu vencedora dos debates constituintes no campo da família, movimento facilitado pela própria natureza da Subcomissão, “afinal, regular a vida privada é uma pauta histórica da Igreja. A manutenção do casamento, a educação das crianças e a crítica ao aborto não constituem cisões entre os setores do episcopado em disputa pelo controle da CNBB” (Wohnrath, 2017, p. 254).[3]
O vigor da Pastoral começou a esmorecer a partir dos anos 2000. Fatores como a retração das políticas sociais públicas, o avanço do neoliberalismo, a redução do papel do Estado e o recrudescimento do paradigma punitivo impactaram fortemente a capacidade de atuação das Pastorais Sociais (Szymanski, 2023). A própria estrutura da Igreja passava por mudanças internas, com a ascensão de grupos que olhavam com menos simpatia para essas Pastorais. Tal contexto revelou os limites históricos da atuação da Igreja em relação à infância e à juventude. Ainda que setores engajados tenham avançado na construção de políticas públicas, de redes de proteção e de linguagens inclusivas, as infâncias e juventudes permanecem, muitas vezes, em posição marginal dentro da vida litúrgica: embora em corpo presente, estão alheias às decisões institucionais e às prioridades da Igreja.
Notas:
[1] Em especial, destaque para Dizer o Testemunho, compilado das colunas de D. Luciano no jornal Folha de S. Paulo, editado pela Arquidiocese de Mariana em 2013. Cf. Santos e Marques (2013).
[2] As fontes utilizadas no âmbito da pesquisa que deu origem a este texto foram gentilmente cedidas pela pesquisadora Elisangela da Silva Machieski, a quem agradeço.
[3] Embora vitoriosa no campo da família tradicional e na pauta antiaborto, a hegemonia eclesiástica encontrou limites na Constituinte. Setores progressistas e pastorais sociais não conseguiram transpor para o texto constitucional suas demandas mais radicais de transformação estrutural, como a defesa ampla da reforma agrária, fortemente esvaziada na Subcomissão correspondente frente a interesses econômicos contrários, e a superação total de heranças assistencialistas e punitivas do Estado no tratamento de adolescentes em conflito com a lei.
Referências:
AZZI, Riolando. A Igreja no Brasil: da monarquia à Nova República. São Paulo: Paulinas, 2006.
CARVALHAL, Juliana Pinto. A serviço da vida: a influência da Igreja Católica na formação do Movimento Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (1982-1986). 2007. 257f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2007.
CELAM. Documentos da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Medellín, Colômbia, 1968. Disponível em: Medellin-1968-2CELAM-PORTUGUES.pdf. Acesso em: jan. 2025.
CNBB. A história da Pastoral do Menor no Brasil. Cartilha. CNBB, s/d.
CNBB. Campanha da Fraternidade. Texto-base. Brasília: Editora Sig, 1987.
CNBB. Projeto Político da Pastoral do Menor. Cartilha. CNBB, 1999.
DAMINELLI, Camila Serafim; ALVES, Ismael Gonçalves. A Pastoral do Menor na redemocratização brasileira: construindo o ideário dos direitos infantojuvenis. Cadernos do CEOM, Chapecó, v. 38, n. 62, p. 246-263, 2025.
DELLA GIUSTINA, Joacir. A Pastoral do Menor no Brasil, hoje. Petrópolis: Vozes, 1987.
GOMES, Paulo César. Os bispos católicos e a ditadura militar: a visão da espionagem. Rio de Janeiro: Record, 2014.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
MACHIESKI, Elisangela da Silva. Quem acolhe o menor, a mim acolhe: a Campanha da Fraternidade de 1987 e a mobilização da Igreja Católica em prol da infância pobre e abandonada. Revista História: Debates e Tendências, Passo Fundo, v. 21, n. 2, p. 130-144, 2021.
SANTOS, José Carlos dos; MARQUES, Lúcio Álvaro (Orgs.). Dizer o Testemunho, Vol. I. São Paulo: Paulinas, 2013.
SILVEIRA, Diego Omar da; OLIVEIRA, Fabrício Costa; FERREIRA, Rodrigo Souza. In Nomine Jesu: entrevista com Dom Luciano Mendes de Almeida. Revista Eletrônica Cadernos de História, Ouro Preto, v. 1, n. 2, p. 1-24, 2006.
SOUZA, Ney de. “Pobreza da Igreja”: História e Teologia do documento 14 da Conferência de Medellín. Caminhos, Goiânia, v. 17, n. 2, p. 527-740, mai./ago. 2019.
SZYMANSKI, Rodrigo. O processo formativo de lideranças sociais e políticas na década de 1980: a experiência da Pastoral da Juventude em Criciúma, SC. 2023. 102f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma, 2023.
WOHNRATH, Vinicius Parolin. Duas dinâmicas, dois resultados: a Igreja Católica na Assembleia Nacional Constituinte 1987-1988. Pro-Posições, Campinas, v. 28, n. 3, p. 242-270, 2017.
Como citar este artigo:
DAMINELLI, Camila Serafim. Durante a redemocratização, a Pastoral do Menor ofereceu uma leitura teológica sobre a marginalização social das crianças e dos adolescentes. História da Ditadura, 16 jul. 2026. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/durante-a-redemocratizacao-a-pastoral-do-menor-ofereceu-uma-leitura-teologica-sobre-a-marginalizacao. Acesso em: [inserir data].