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O presentismo e a urgência do presente

No dia 17 de agosto de 2022, entrei no Twitter acompanhado de uma xícara de café, como de costume, e percebi que as menções a um texto com o provocativo nome de Is History History? Identity Politics and Teleologies of the Present (A História é História? Políticas identitárias e teleologias do presente, em tradução livre) haviam desencadeado um intenso volume de interações entre os historiadores norte-americanos na rede social. O título do texto, publicado pelo historiador James H. Sweet em sua coluna no site Perspectives on History, possui um jogo de palavras que deixa sua intencionalidade confusa: Sweet estava perguntando se a história acabou e faz parte do passado ou se a história ainda é História? Ou se o campo historiográfico continua fazendo o que a história deveria fazer? Ou, ainda, se está sendo usado para outros fins, ideológicos e não-históricos?


As reações não paravam. No Twitter, li o desabafo de Mukoma Wa Hgugi, professor da Universidade Cornell, sobre o “olhar branco” do autor. Já T. J. Tallie, historiador da Universidade de San Diego, denunciou o ensaio como “violência significativa e substancial”. Por fim, a historiadora Cate Denial, do Knox College, no Illinois, organizou uma campanha por e-mail para pressionar a American Historical Association (AHA) – a correlata da Associação Nacional de História (ANPUH) e responsável pelo blog Perspective on History – a garantir o espaço de resposta aos críticos do texto de Sweet. A avalanche de interações foi tão grande que, apenas três dias depois do texto ter se tornado público, a AHA decidiu bloquear temporariamente sua conta no Twitter para tentar encerrar a discussão, afirmando que o tópico havia sido sequestrado por “trolls”.


Desabafo de Mukoma Wa Hgugi, professor da Universidade Cornell, no Twitter.
Desabafo de Mukoma Wa Hgugi, professor da Universidade Cornell, no Twitter.

Os setores conservadores entenderam de que lado deveriam estar na polêmica dos historiadores. The Wall Street Journal publicou um artigo de opinião usando politicamente a argumentação de Sweet e denunciando a “destruição da história americana pelo woke mob”. A ultraconservadora Fox News – como não havia de ser diferente – seguiu em termos semelhantes. Meses mais tarde, David Frum, ex-redator de discursos de George W. Bush e mestre em História, escreveu no The Atlantic uma caracterização de James H. Sweet como uma vítima da intransigência política dos acadêmicos mais jovens. Enquanto o Twitter fervilhava e os memes inevitavelmente brotavam, comecei a ler o texto.


Recreating Africa: Culture, Kinship, and Religion in the African-Portuguese World, 1441-1770

O barulho causado pelo artigo não era reação a um historiador qualquer. O autor de Is History History? é um africanista branco na prestigiosa Universidade de Wisconsin–Madison e, além disso, era o então presidente da AHA. Sweet não é exatamente um desconhecido dos historiadores brasileiros: seu trabalho circula entre aqueles que pesquisam o período colonial e a escravidão atlântica. Certamente, seu livro mais famoso no Brasil é Recreating Africa: Culture, Kinship, and Religion in the African-Portuguese World, 1441-1770. Nesta obra, ele examina as práticas culturais que sobreviveram ao transplante de mais de um milhão de centro-africanos para o Brasil durante o período colonial e argumenta que, apesar desse deslocamento, essas práticas permaneceram distintamente africanas por algum tempo. As pessoas escravizadas trouxeram consigo estruturas de parentesco, rituais de adivinhação, provações judiciais, enterros rituais, restrições alimentares e sociedades secretas. Sweet mostra que, embora as estruturas dessas práticas permanecessem constantes, seus significados frequentemente se transformavam: os rituais religiosos tornaram-se poderosas formas de protesto contra a escravidão e as crenças e costumes africanos influenciaram o catolicismo brasileiro. Com essa agenda de pesquisa, Sweet surpreendeu a comunidade de historiadores com sua crítica sobre o suposto presentismo que tem acometido os historiadores.


Neste texto, busco mostrar que as questões suscitadas pelo artigo de Sweet e as reações da academia americana são um importante ponto de reflexão para os historiadores da ditadura brasileira. Primeiro, porque o presentismo é um tópico “escorregadio, amorfo e polivalente” (Walsham, 2017). Segundo, porque nós que estudamos a ditadura iniciada após o golpe de 1964 lidamos com um período que tem sido objeto de revisionismos por parte de autoridades civis e militares e que goza de pouco espaço na mídia mainstream. Terceiro, porque a batalha pela memória, que se dá no presente, é um importante catalizador do campo de estudos sobre a ditadura. Apesar de escrevermos tão próximos das querelas do presente e sob a ameaça do bolsonarismo, seguimos um processo de aprimoramento de métodos e de descoberta de novos caminhos possíveis – inclusive no diálogo com leitores não-profissionais, a exemplo do próprio site História da Ditadura. Por isso, é importante entender o debate levantado por James H. Sweet e as críticas dirigidas a seu texto.


O “escorregadio, amorfo e polivalente” presentismo


Em linhas gerais, Sweet apresenta em seu artigo uma preocupação com a forma como a História tem sido apresentada e interpretada recentemente, influenciada pelas políticas e identidades do presente. Para o historiador, a historiografia atual americana vem cometendo dois tipos de equívocos: ignorar “os valores e costumes das pessoas em suas próprias épocas” e desprezar “as mudanças ao longo do tempo, neutralizando a especialização que separa os historiadores daqueles em outras disciplinas” (Sweet, 2020). Essas duas formas de anacronismo – ou seja, da tendência em interpretar eventos e pessoas passadas em termos de valores e normas atuais – são consideradas por ele como presentismo. Aos leitores não historiadores, é importante dizer que o anacronismo “o mais imperdoável” entre todos os pecados para um historiador (BLOCH, 2011, p. 144). Nesse caso, a “acusação” de presentismo é usada para condenar outros e nunca como uma autoidentificação. O presentismo é sempre um crime cometido pelo Outro – nossos inimigos, ou forasteiros profissionais. Trata-se de um uso ofensivo do termo, porque significa que os historiadores estariam sacrificando sua objetividade e seu compromisso ético para construir uma ficção política.


Historiador norte-americano David Armitage, professor na Universidade de Harvard.
Historiador norte-americano David Armitage, professor na Universidade de Harvard.

Entretanto, o debate em torno do conceito de presentismo apresenta inúmeras nuances. O historiador norte-americano David Armitage (2023) tipificou cinco usos do conceito entre os historiadores: 1) uma teleologia a partir do presente; 2) a pressão do presente na reconstrução do passado; 3) as questões do presente que moldam as perguntas dos historiadores; 4) o desinteresse do público, estudantes e instituições por períodos remotos e a prioridade de seus horizontes para questões contemporâneas; 5) a onipresença do presente em nossa vida cotidiana. Tais noções não são mutuamente excludentes e podem aparecer sobrepostas nos usos dos historiadores. Ao mencionar a tipologia de Armitage, minha intenção não é analisá-la em sua profundidade, mas alertar o leitor para a polissemia que o termo provoca.


O fundamental é saber que o presidente da AHA escreveu seu texto tentando retomar as preocupações de Lynn Hunt em seu artigo Against Presentism, de 2002. Na ocasião, a historiadora afirmou que o presentismo nos assedia de duas maneiras: primeiramente, ele nos leva a “interpretar o passado em termos presentistas”, como uma teleologia a partir do presente, e, em segundo lugar, muda o interesse histórico geral para o período contemporâneo e para longe do passado mais distante.


Não podemos perder de vista que Hunt é uma especialista em Revolução Francesa – portanto, uma historiadora que estuda um evento do século XVIII. Porém, ela também defendeu que o século XX fizesse parte da erudição e do ensino histórico, desde que não promovesse a exclusão de “todo o resto” (HUNT, 2002). Além disso, Hunt estava escrevendo sobre um problema fundamentalmente distinto em relação ao de Sweet. Seu objetivo era “questionar a postura de superioridade temporal que está implícita na disciplina histórica ocidental (e agora provavelmente mundial)” (HUNT, 2002). Em outras palavras, a historiadora estava preocupada com um sentimento de superioridade moral dos estudiosos do presente em relação aos que estudam os tempos remotos, o que produz uma fetichização da “modernidade” e gradualmente destrói nossa abertura para outras possibilidades de futuro.


Dessa maneira, as visões de história de Sweet e de Hunt se distanciam na medida em que o primeiro insiste que “a História não é uma ferramenta heurística para a articulação de um futuro ideal imaginado”. Portanto, ele não tem – ou, ao menos, não deve ter – um uso político. Porém, o trecho do texto de Hunt que melhor evidencia a distância em relação à visão de História de Sweet é o seguinte:


O presentismo não admite solução pronta; acaba sendo muito difícil sair da modernidade ou de nossa consciência histórica ocidental moderna. Mas é possível nos lembrarmos das virtudes de manter uma tensão frutífera entre as preocupações do presente e o respeito pelo passado. Ambos são ingredientes essenciais na boa história. A emergência de novas preocupações no presente invariavelmente revela aspectos da experiência histórica que foram ocluídos ou esquecidos. O respeito pelo passado, com sua concomitante humildade, curiosidade e até admiração, nos permite ver além de nossas preocupações atuais, para trás e para frente ao mesmo tempo. Estamos todos presos nas ondulações do tempo e não temos ideia de para onde elas estão indo.

Para tornar esse debate mais palpável, analisemos os exemplos de presentismo que Sweet articula para defender sua perspectiva.


Exemplos de presentismo


Para Sweet, esse presentismo entre historiadores pode levar à criação de narrativas históricas de cunho político, que servem apenas para legitimar determinadas ideologias ou identidades e que podem resultar no apagamento de certos grupos e perspectivas da história. Em seu texto, ele apresenta o exemplo da construção de Elmina, em Gana, como um lugar de memória da escravidão negra americana. Segundo Sweet, essa localidade era um centro para os mercados de escravos do Caribe e do Brasil e a passagem de pessoas transportadas para o que se tornaria os Estados Unidos era residual. Isso não impediu que Elmina adaptasse sua história com o objetivo de atrair turistas americanos negros com poder aquisitivo maior do que os descendentes dos escravizados no Brasil e no Caribe. O problema aqui é menos a qualidade da historiografia e mais os interesses econômicos capitalistas – ou ainda as razões pelas quais afro-americanos se sentem conectados com essas experiências.


Em outro momento do texto, Sweet critica o filme The Woman King, que representa o reino africano do tráfico de escravos do Daomé como uma terra de combatentes da liberdade contra a agressão estrangeira. “Má história produz má política”, escreveu. “O apagamento dos impérios africanos de comércio de escravos em nome da unidade política é desconfortavelmente semelhante às tentativas conservadoras de direita de apagar a escravidão dos currículos escolares nos Estados Unidos, também em nome da unidade.” A crítica é valida e importante, mas filmes de Hollywood não são produções historiográficas. Além disso, historiadores – dentre eles, Marc Ferro (1976) – têm apontado há décadas que filmes são mais eficazes em revelar questões do contexto em que foram produzidos do que dos períodos que tentam retratar.



O exemplo principal – e único livro – ao qual Sweet direciona sua crítica foi The 1619 Project: A New Origin Story, resultado de um projeto liderado pela jornalista e acadêmica negra Nikole Hannah-Jones e publicado em parceria com o The New York Times.Trata-se de uma iniciativa jornalística de contar a história americana centralizando a questão da escravidão e segregação negra. Esse direcionamento no olhar dos envolvidos no projeto levou a caracterização errônea, segundo Sweet, dos chamados “pais fundadores” dos Estados Unidos – George Washington, Thomas Jefferson e James Madison – como “proprietários antipatrióticos de campos de trabalhos forçados”. Essa caracterização, no entanto, escandalizou os americanos e gerou uma onda de protestos dos conselhos escolares locais. Quem também se irritou com a dessacralização dos “pais fundadores” foram os legisladores conservadores, como o senador do estado do Arkansas Tom Cotton, que afirmaram que, se essa era a história da escravidão, o assunto não deveria ser ensinado.


Para Sweet, foi o apoio dos historiadores profissionais ao The 1619 Project que lhe conferiu “legitimidade histórica”. Não sei exatamente o que é legitimidade histórica para ele, mas sei que o que deu notoriedade ao projeto – que se tornou um bestseller – foi o poder de circulação do Times somado à capacidade de convencimento da narrativa do projeto.


Além disso, The 1619 Project não passou acriticamente pela comunidade de historiadores como alguns podem acreditar a partir da leitura do texto de Sweet. Em dezembro de 2019, por exemplo, uma robusta crítica pública assinada por cinco importantes especialistas da história americana expressou “fortes reservas sobre aspectos importantes do projeto”. Saudaram “os esforços para abordar a centralidade duradoura da escravidão e do racismo em nossa história”, mas ficaram “consternados com alguns dos erros factuais no projeto e no processo fechado por trás dele”.[1] A comunidade de historiadores compreende os usos e os abusos do presentismo e tem feito as críticas quando necessário.


Se o The 1619 Project é um dos exemplos de presentismo à esquerda, para Sweet, outro exemplo de mau uso da História, desta vez à direita, seria a forma como os juízes da Suprema Corte americana invocam-na para legitimar a defesa irrestrita do acesso a armas e a restrição do aborto. A conexão entre isso e os impactos na disciplina histórica são de difícil compreensão. De qualquer forma, várias historiadoras e historiadores têm apontado problemas nesse uso abusivo da história por juízes. Seria James H. Sweet ingênuo suficiente para acreditar que escrevendo livros e artigos acadêmicos (não presentistas) influenciaremos a agenda política das direitas?


The 1619 Project
The 1619 Project

Além disso, Priya Satia (2022) considera em seu artigo-resposta The Presentist Trap que Sweet “iguala de forma perturbadora o ‘presentismo’ dos negros americanos inspirados pelo Project 1619 e o dos conservadores” que buscam manter o poder inalterado e restringir direitos (no caso citado, os juízes da Suprema Corte). Já Keisha Blain, professora da Universidade de Brown, em artigo na The New Republic, aponta que as “críticas recentes ao ‘presentismo’ falham em ver que não podemos separar o passado do presente – e que estudos supostamente objetivos há muito promovem narrativas racistas e suprimem a história negra”. Assim, Sweet renova um padrão de preocupação recorrente nas publicações da AHA, quando aqueles que ousavam criticar os cânones eram considerados ideológicos.


Se esses são os exemplos de presentismo, onde estão os (maus) historiadores? Os exemplos apresentados pelo presidente da AHA não envolvem diretamente nenhuma produção historiográfica, mas produções de conteúdo de apelo histórico, para as quais contribuem políticos, “historiadores populares”, museus, romances, programas de TV, filmes, ativistas, o público e até historiadores. Já a produção historiográfica é um universo restrito e profissional inserido nesse campo mais amplo. Assim, os historiadores têm uma dupla função: aprofundar e produzir conhecimento historiográfico na interação com os pares (e, eventualmente, até com outros atores) e, como afirmou Priya Satia, desafiar essa produção de História/ memória (profissional ou não) que consideramos problemática. Como historiadores, sem ignorá-los, precisamos sair do confortável mundo acadêmico em que falamos como “pares” e comunicarmos onde estão os problemas dessas produções com temas históricos.


Porém, não podemos presumir que os historiadores podem controlar todo o conteúdo de apelo histórico produzido por pessoas interessadas no passado. Os equívocos das adaptações da indústria do turismo afro-americano em Gana, um filme da indústria cinematográfica americana, um projeto jornalístico do Times e os usos e abusos de casos históricos na Suprema Corte americana não estão necessariamente no alcance dos historiadores. O que podemos e estamos fazer no campo da história é nos posicionarmos sobre esses usos. Mesmo assim, o presidente da AHA ataca a disciplina por não respeitar os “valores e costumes das pessoas em seus próprios tempos”. Argumentar sem oferecer uma única evidência de trabalho historiográfico também não seria um pecado metodológico grave?


Tensão frutífera entre presente e o passado


A recepção hostil do texto de James H. Sweet – que o levou a escrever um pedido de desculpas como nota introdutória ao texto dois dias depois de sua publicação – se deve à má repercussão dos argumentos do presidente da AHA e à sua tentativa frustrada de falar sobre os maus usos da História.


O debate sobre presentismo passa por dois grandes consensos no campo da História. Primeiro, o de que a história precisa trazer elementos contextuais do passado sem criar uma “teleologia do presente” (ARMITAGE, 2023) – onde o destino do processo histórico é o presente, assim as pessoas no passado são reconstruídas nas narrativas históricas e agem como se conhecessem a contemporaneidade do autor. Isso pode ser facilmente identificado em livros como El império socialista de los incas, de Louis Baudin (1961) – em que há uma tentativa de caraterização de povos antigos em termos modernos de forma equivocada – e Nossa herança clássica, de Will Durant (1995) – em que o Império Romano é derrubado por socialistas; ou em The End of History and the Last Man (O fim da História) de Francis Fukuyama (1991), que interpreta o fim da Guerra Fria como o triunfo final do liberalismo. Não há dúvida de que o historiador, ao identificar esse tipo de presentismo praticado por profissionais ou não, precisa discutir publicamente e desconstruí-lo.


Capa do livro Apologia da História de Marc Bloch

No entanto, outro grande consenso é o de que não é possível produzir História sem dinâmicas e tensões com o presente. Por exemplo, estudar mulheres na Idade Média passou a ser um tópico relevante pelas demandas feministas, e não da própria Idade Média – porque nenhum tempo histórico demanda conteúdos intrínsecos. Mas os historiadores e historiadoras o fazem usando noções reconstruídas (na mediação com o presente) de feminilidade do medievo e não de uma aplicação automática de uma concepção de mulher nascida a partir do século XIX ou de uma versão original extraídas das fontes do passado. Só ingênuos podem continuar afirmando que temos acesso direto ao passado, depois que o historiador italiano Benedetto Croce (1941) disse que toda história é história contemporânea, ou que Marc Bloch (2001) dedicou um capítulo em Apologia da História sobre como devem ser as relações do passado com o presente. Para Bloch, aliás, as perguntas historiográficas são, primordialmente, interrogações do presente ao passado e devem ser respondidas com métodos também circunscritos no presente. E até o historiador britânico E. H. Carr (1961, p. 24) concordou que “podemos ver o passado e alcançar nossa compreensão do passado apenas através dos olhos do presente.”


Um exemplo ilustrativo disso é o próprio insight de James H. Sweet. Sua reação contrária ao “presentismo” decorre de sua percepção do relativo rareamento de teses de doutorado sobre tópicos anteriores a 1800 nos Estados Unidos. É o mal-estar do presente que move o próprio James H. Sweet. Por isso, como afirma Dipesh Chakrabarty (2000), os humanos de qualquer período “são sempre, em certo sentido, nossos contemporâneos” e escrever História é “uma disjunção do presente consigo mesmo”. Por isso, o passado não tem uma dimensão ontológica separada do presente. Dito de outra maneira, como a História é indissociável do contexto em que é produzida, é umbilicalmente unida ao debate político do presente.


O declínio dos historiadores como intelectuais públicos na contemporaneidade, diagnosticado por Eric Hobsbawn em Tempos fraturados (2012), talvez decorra do medo de ser acusado de presentista por pares como Sweet. Numa operação que separa a atuação política da vida academia. Talvez esse fantasma do erro presentista tenha enfraquecido o campo historiográfico como uma fonte de imaginações do futuro, aprisionando-nos assim no que François Hartog (2013) chamou de “regime de historicidade presentista”, como trágicas (ou cômicas) criaturas da modernidade tardia. Nesse regime de historicidade característico de nosso próprio tempo, o passado vale cada vez menos em seus próprios termos, o futuro é cada vez mais difícil de imaginar – e, quando imaginado, é sempre apresentado de maneira apocalíptica (FISHER, 2020; JAMESON, 2021) – e, “reinando absoluto, o presente se impõe como único horizonte” (HARTOG, 2013, p. 9). Assim, continua ele, “presente continuamente consumado no imediatismo ou quase estático ou interminável, senão eterno” (HARTOG, 2013, p. 38).


O eterno presente inescapável promove uma deterioração da nossa ação política porque diminui nosso senso de urgência. Porque o eterno é oposto à urgência, pois é o senso de finitude e de fragilidade que nos leva cuidar no agora e não protelar para um período remoto no futuro, como defende o teólogo Martin Hängglund (2020). Sem urgência, atados a um eterno presente, os historiadores e os profissionais dos outros campos das humanidades tornam-se passageiros inertes diante dos alertas de deterioração do tecido social e pela crise ambiental, ambos promovidos pelo capitalismo. Se o presente sempre existirá, o mesmo não vale para a História. Novamente, basta olhar o encolhimento dessa área de estudos nos Estados Unidos ou a ausência de historiadores como intelectuais públicos. Por isso, em um cenário de crise capitalista e ambiental, avanço das direitas e o suposto declínio do historiador como intelectual publico, é preciso pensar mais sobre o senso de urgência que Keisha N. Blain aponta no trecho da crítica a Sweet:


Mais importante, estamos lutando por nossas vidas. O compromisso de envolver as preocupações atuais não é simplesmente um método ou abordagem para o ofício de pesquisa e escrita do estudioso. É uma questão de vida ou morte. A realidade do momento presente impulsiona muitos de nós a agir.

Esse senso de urgência do presente pode nos fazer reimaginar novos futuros possíveis e mover a História para uma dinâmica em que não seja contraditório ser ao mesmo tempo político e acadêmico, anedótico e analítico, ou sério e prazeroso – como, aliás, um bom livro de História precisa ser. A questão fundamental que nos falta fazer, diante desse debate, é: quanto de presente deve haver na reconstrução do passado pelos historiadores? Adianto que essa resposta será dada no presente e será uma resposta política.


Créditos da imagem destacada: Foto de Oladimeji Ajegbile na Unsplash

 

Nota:

[1] Os historiadores que assinaram a carta são: Victoria Bynum (Texas State University); James M. McPherson (Princeton University); James Oakes, (The City University of New York); Sean Wilentz (Princeton University); e Gordon S. Wood (Brown University).


Referências:

ARMITAGE, David. In Defense of Presentism. In: McMAHON, Darrin M. (Org.). History and Human Flourishing. Oxford: Oxford University Press, 2023. p. 59-84.

BLOCH, Marc. Apologia da história, ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

CARR, E. H. What Is History? Cambridge University Press, 1961.

CHAKRABARTY, Dipesh. Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference. Princeton University Press, 2000.

CROCE, Benedetto. History as the Story of Liberty. George Allen and Unwin, 1941.

FERRO, M. O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, J., NORA, P. (Orgs.). História: novos objetos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976. p. 202-203.

HÄGGLUND, Martin. This Life: Secular Faith and Spiritual Freedom. New York: Anchor Books, 2020.

JAMESON, Fredric. Arqueologias do futuro: o desejo chamado Utopia e outras ficções científicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

HARTOG, François. The Present of the Historian. History of the Present, 4 (2014): 203–19.

HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

HUNT, Lynn. Against Presentism. Perspectives on History, 40, 5. maio de 2002.

SATIA, Priya. The Presentist Trap. Perspectives on History. set. 2022.

SWEET, James H. Is History History? Identity Politics and Teleologies of the Present. Perspectives on History, ago. 2020.

WALSHAM, Alex. Past and... Presentism. Past and Present, 234 (2017): 213–17.


Como citar este artigo:

BARBOSA, Caio Fernandes. O presentismo e a urgência do presente. História da Ditadura, 26 jun. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/o-presentismo-e-a-urgencia-do-presente. Acesso em: [inserir data].

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