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  • Foto do escritorDavid Netto

A esperança como afeto político: ainda sobre as eleições de 2022

Como já destaquei em texto anterior publicado no História da Ditadura, regimes políticos articulam formas diferentes de mobilização. No caso das democracias modernas, são diversos os caminhos pelos quais ela se realiza e são diversas as formas de emissão de mensagens, baseadas em linguagens que procurem fortalecer sentimentos positivos entre a nação e seus governantes.


Em síntese, Estados e governos trabalham ativamente para sedimentar símbolos afetivos (como a bandeira, o hino e a língua) para os quais devem convergir afetos políticos e, sempre que necessário, gerar mobilização para sua defesa. Nesse sentido, trata-se da manipulação de um conjunto de imaginários políticos que não são construídos aleatoriamente e cujos sentidos sempre estão envolvidos em algum tipo de disputa.


As últimas eleições no Brasil não fugiram a esta lógica. Sem desconsiderar a importância das análises políticas que se pautam pelos dados eleitorais, optei por um texto que levasse em consideração o elemento afetivo como parte explicativa do processo eleitoral. Meu objetivo é refletir sobre como a esperança, enquanto um afeto político, foi instrumentalizada nas eleições presidenciais brasileiras de 2022, mobilizando um conjunto heterogêneo de expectativas em torno da chapa Lula-Alckmin.


A campanha eleitoral de Lula: a integração pela diferença


A campanha de Lula procurou mobilizar uma simbologia sequestrada pela extrema-direita desde 2013. Vejamos como esta operação pode ser analisada. Símbolos nacionais remetem, direta ou indiretamente, a uma leitura histórica mais ou menos consolidada no senso comum, informando identidades que, uma vez instituídas, demandam uma dupla ação para sua desconstrução: a reflexão teórica e a ação de movimentos sociais.


As Ciências Humanas e a História, como é possível notar, por exemplo, na Escola Paulista de Sociologia, dos trabalhos de Florestan Fernandes, Octavio Ianni e intelectuais negros como Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez demonstraram que alguns dos elementos mais sólidos da identidade nacional brasileira são produto desta construção ideológica de longo prazo, cuja continuidade está sempre num embate entre grupos e instituições diversas. Estas tensões podem produzir diversos tipos de revisão do passado histórico hegemônico.


Tais reflexões teóricas foram acompanhadas por um aumento significativo de mobilização e participação de inúmeros movimentos sociais que, aos poucos, ganharam espaço nas ruas e ajudaram a consolidar novas políticas públicas – como é o caso da Lei 10.639/2003, que regulamenta o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas instituições educacionais.


Estas revisões se voltam para símbolos que representam esse passado, pois informam uma leitura histórica excludente. Portanto, a ojeriza à bandeira e ao hino nacionais, o sentimento de não pertencimento à chamada “memória oficial”, a sensação de que o “herói bandeirante” se ergueu contra os meus antepassados e de que “seus descendentes” se erguerão “contra mim” e a rejeição ao tipo de história ensinada na escola levam à construção e à procura de novos símbolos, novos heróis, novas bandeiras e uma nova língua.


A partir de 2013, esses símbolos oficiais foram instrumentalizados de forma a serem acentuadas estas características: defender a bandeira do Brasil passou a significar defender a herança escravista, a estratificação social que impõe determinados lugares aos gêneros, às etnias e às classes. Adesivos, bandeiras no Brasil nos carros e mesmo as camisas da Seleção Brasileira passaram a ser uma espécie de “carteira do clube”.


Não era de estranhar – embora tenha assustado bastante – a retomada de slogans que procuravam defender um tipo de país, como “minha bandeira jamais será vermelha”, “vai para Cuba”, “nem esquerda, nem direita: meu partido é o Brasil” e até o infame slogan da Operação Bandeirantes, “Brasil: ame-o ou deixe-o”.


Nessa perspectiva, a busca pela unidade do corpo político é construída a partir de um processo de exclusão que atua, ao mesmo tempo, no campo da narrativa e do controle da memória oficial e de natureza física, já que patrocina o extermínio do diferente, do desviante ou do indesejado – como o recente caso dos Yanomamis deixou claro. Dessa forma, a mobilização afetiva oscila entre o medo de se perder, o ódio ao outro, o gozo da ação e a felicidade do sucesso.


Como afirma Vladimir Safatle (2016, p. 22):


[...] não há política sem a encarnação, em alguma região e momentos precisos, da existência da vida social em seu conjunto de relações. Pois é tal encarnação que afeta os sujeitos que compõem o corpo político, criando e sustentando vínculos. 

Na esteira da campanha eleitoral de 2022, a coligação liderada por Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) fez uma leitura bastante arguta do mesmo cenário. A partir dela, procurou mobilizar não apenas a oposição à esquerda, mas ampliar o raio de ação ao agregar eleitores que, em outras condições, fariam uma opção exclusivamente ideológica. Isso significou ganhar votos de setores de centro-direita e direita que, embora ideologicamente afastados de Lula e/ou do PT, viam na composição da candidatura do petista elementos com os quais poderiam se identificar. Ao observar os dados eleitorais do segundo turno, é possível perceber o impacto dessa composição, por exemplo, pelos 3 milhões de eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet que migraram para Lula. Embora possa parecer pouco expressivo, é importante lembrar que analisamos uma eleição que se decidiu por uma diferença de 2.1 milhões de votos a favor de Lula. Portanto, não é exagero dizer que a estrutura da candidatura de Lula foi quem conseguiu articular a construção de uma Frente Ampla[1] – a começar pela escolha do vice-presidente, o tucano histórico Geraldo Alckimin, agora filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).


Alguns elementos conseguiram convergir para o sucesso da campanha de Lula e Alckmin em 30 de outubro. O primeiro e mais notório – e que não será explorado aqui – são os atributos políticos e a figura singular de Luís Inácio Lula da Silva. O segundo, este sim objeto desta reflexão, é a forma pela qual a campanha conseguiu mobilizar os afetos na busca da superação eleitoral do adversário. No domingo à noite, após a divulgação dos resultados pelo TSE, todos nós ouvimos de inúmeras pessoas – alinhadas ideologicamente ao PT e/ou a esquerda ou não – palavras de alívio como “Ufa, ainda bem que acabou!” ou “Que medo desse sujeito ser reeleito”. Exageros à parte, foi quase uma catarse.


Logo da campanha presidencial "Vamos juntos pelo Brasil"

De início, a campanha, liderada pelo publicitário Sidônio Palmeira, procurou operar na lógica da polarização. O primeiro vídeo da pré-candidatura se chama “dois lados” e procura alinhar Bolsonaro ao lado da fome, da miséria, do abandono e do ódio. Por sua vez, a figura de Lula aparece como sendo o meio pelo qual “um outro Brasil” poderia existir. Ao final, a narradora afirma: “Lula presidente: o Brasil da esperança!”.


No decorrer da campanha, as críticas da extrema direita recaíram sobre o amplo uso da cor vermelha, um símbolo tradicional da esquerda, utilizado especialmente no primeiro turno. No segundo turno, agora com um conjunto mais amplo de apoios, o vermelho passou a dividir espaço com o branco nos atos de campanha. Segundo informações da jornalista Andrea Sadi, Simone Tebet foi quem fez a sugestão. Segundo a ex-senadora e atual ministra do Planejamento e Orçamento, o vermelho poderia afastar eleitores, especialmente no interior dos estados.


Seja pela orientação de Tebet ou pelo comitê da campanha, o fato é que as cores foram alteradas e a campanha passou a ser menos monocromática, adicionando o branco em bandeiras, adesivos e nas roupas de Lula e Alckmin.


O ex-presidente Lula (PT) em caminhada em Belo Horizonte. Imagem: Ricardo Stuckert. Reprodução.

O detalhe da mudança das cores pode parecer aleatório, mas, em política, raramente alguma coisa é. Quando se olha para o conjunto, a campanha do petista procurou ressignificar os símbolos. Não apenas o branco, mas a bandeira do Brasil e suas cores passaram a ser utilizadas nos atos de campanha, nas inserções de televisão, nas mídias sociais, em adesivos e em banners, sob uma nova perspectiva.


Em julho de 2022, na cidade Diadema, Lula afirmou em um evento de campanha:


Nós precisamos resgatar essa bandeira, porque essa bandeira é do povo desse país. Essa bandeira não é de fascista: essa bandeira é de quem trabalha, é das mulheres, dos negros. Essa bandeira é da sociedade brasileira. Portanto, nós temos que ter orgulho de usar a nossa bandeira, porque os caras deles usam a bandeira quando termina o ato, vão para Miami gastar o dinheiro deles e nós ficamos aqui no Brasil. Portanto, gente, eu sou brasileiro e não desisto nunca. É esse o nosso lema.

Em agosto de 2022, uma grande bandeira nacional “passeava” pela multidão em mais um ato de campanha, dessa vez em Teresina.


Público desfralda a bandeira nacional e do Piauí, em gesto que emocionou Lula. Imagem: Ricardo Stuckert. Reprodução..

Lula posta foto na reta final da apuração das eleições 2022. Imagem: Ricardo Stuckert. Reprodução/Twitter.

A retomada da bandeira nacional procurou encontrar a unidade na diferença. Os discursos apontavam que o Brasil é de todos, todas e todes e que nós só somos o que somos, pois conseguimos, do nosso jeito, produzir uma sociedade única. A imagem da bandeira foi retomada na noite do dia 30 de outubro, após o resultado proclamado. No Twitter, Lula publicou uma foto feita por seu fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert. Logo no discurso da vitória, afirmou “Esse verde-amarelo e essa bandeira pertencem ao povo brasileiro”.


O slogan da campanha também oferece uma pista para a inspiração do tipo de mobilização: o Brasil da esperança. Contudo, como ficou claro no decorrer da campanha, não se tratou da esperança em seu sentido de espera indefinida. Pelo contrário, foi um jogo aberto de embates políticos e conversão de votos, uma tentativa de diminuição das abstenções e votos nulos que conseguiu garantir 3 milhões de votos a mais que o petista teve no segundo turno – número suficiente para superar os 7 milhões a mais de Bolsonaro.


A passagem da faixa presidencial não pelo ex-presidente ou pelo vice-presidente – e nem mesmo, como se cogitou, pela ex-presidenta Dilma Rousseff –, mas por um grupo de pessoas que simbolizavam essa capacidade da nação em abrir-se ao seu povo nas suas diversas formas de existir. Embora a imagem já tenha circulado fartamente, ela se faz necessária.


Milhares de pessoas acompanharam a posse de Lula em Brasília. Imagem: Tânia Rego. Agência Brasil. Wikimedia Commons.

Em seus discursos e no material de campanha, Lula procurou enfatizar o amor e a conciliação nacional em prol de um novo Brasil (o atual slogan do governo federal é “União e Reconstrução”), em que estão incluídos aqueles considerados desviantes pelo outro polo político. Não à toa, uma diversidade de cores e estilos desfilaram durante toda a campanha eleitoral e deram o tom ao emocionante discurso de Silvio Almeida, ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania no Brasil. Assim, é preciso recolocar a questão a partir do argumento de que “não precisamos ser iguais para fazer algo juntos”. Isto significa pensar num significante flutuante, nos termos de Ernesto Laclau, para o qual possam confluir os diferentes.


O que procuramos apontar aqui é que a campanha de Lula procurou manter aberto o sentido de “seus significantes constitutivos” (DUNKER, 2018, p. 60): “democracia”, “justiça” e “igualdade”, de maneira que pudessem agregar grupos diferentes, tornando-se menos identitária. Por seu turno, a campanha de Bolsonaro apostou na definição pela identidade, que precisa ser reposta, defendida e imposta a todo momento e a todas as pessoas. Não é preciso dizer que esta formatação caminha ao lado da violência política, na medida em que aposta na necessidade de defesa de valores inflexíveis tais como a família e o cristianismo. A identificação pela identidade é alimentada pela paranoia do “perigo eminente” da destruição pelo “inimigo” – que neste caso é o outro, o diferente – desloca os sujeitos da realidade e os colocam na direção do narcisismo (o espaço público precisa ser a imagem do espaço privado), da moralização e da seleção contínua daqueles que podem ou não participar do movimento, o que leva a configuração de novos grupos, mais radicais, como é o caso dos “patriotas” em relação ao “cidadão de bem”.


O conjunto dos afetos mobilizados procurou capturar e ampliar a capacidade de “encarnação política” (SAFATLE, 2016). É provável que esta eleição não seja comparável a nenhum outro momento da história recente do Brasil – exceto, talvez, à crise pós-renúncia de Jânio Quadros e o desenrolar da história que levou ao golpe de 1964. Contudo, ao menos dessa vez, a história não se repetiu como farsa, porque a eleição e a posse de Lula se confirmaram. Mesmo os atentados terroristas de 8 de janeiro não se consolidaram como golpe de Estado, uma vez que, ao contrário do que manda a lei marítima, o capitão foi o primeiro a abandonar o navio.


Passado o período eleitoral, a questão que permanece é: se e como esta mobilização continuará ativa e, minimante unificada, para dar ao governo fôlego para enfrentar, pelo menos, dois elementos do jogo político que no quadro atual estão misturados: o bolsonarismo enquanto ideologia e suas táticas de ação (como as fake-news) e suas interlocuções com o fisiologismo do chamado “Centrão”, tendo como centro articulador o Partido Liberal (PL), que fez a maior bancada da Câmara Federal e cobra o pedágio político para fazer composições em função da cooperação parlamentar para implementar as promessas de campanha.


A resposta demandará tempo para ser esclarecida. É possível, por hora, apenas fazer algumas conjecturas. Uma, é que a fisiologia partidária poderá ser predominante, por exemplo, em caso de melhora econômica ou da manutenção dos índices de popularidade de apoio ao Presidente Lula. Isto significa que o bolsonarismo continuará operando na margem e focado nas pautas morais, com atenção especial para a guerrilha digital, à espreita das próximas eleições municipais (2024) e preparando o terreno para 2028. A segunda, deve remeter o golpe de 2016. O que ficou claro ali é que este mesmo fisiologismo não irá titubear em recompor a aliança ideológica com o bolsonarismo se isso significar uma “Ponte para o futuro” 2.0 que os leve a ampliar o acesso aos recursos para serem utilizados de maneira pouco republicana.


 

Nota:

[1] Aqui fazemos alusão a primeira tentativa de Frente Ampla, ocorrida em 1966, ainda durante a ditadura militar. O movimento reuniu o conservador Carlos Lacerda e seus adversários políticos, os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, que procuravam articular uma resistência política aos militares. A Frente Ampla existiu até abril de 1968, quando foi considerada ilegal e, após o AI-05, Carlos Lacerda teve seus direitos políticos caçados por 10 anos.


Referências:

DUNKER, C. Crítica psicanalista do populismo no Brasil: massa, grupo e classe. In: HOFFMANN, ; BIRMAN, J. Psicanálise e política: uma nova leitura do populismo. 1. ed. São Paulo: Instituto Language, 2018. p. 203 - 223.

LACLAU, E. A razão populista. 1. ed. São Paulo: Três Estrelas, 2013.

VLADIMIR, S. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e fim do indivíduo. 1. ed. São Paulo: Autêntica, 2016.


Como citar este artigo:

CASTRO NETTO, David A. A esperança como afeto político: Ainda sobre as eleições de 2022. História da Ditadura, 22 mai. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/a-esperanca-como-afeto-politico-ainda-sobre-as-eleicoes-de-2022. Acesso em: [inserir data].

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